SOBRE A INTUIÇÃO - PARTE 2

A habilidade natural esquecida + um exercício para entrar em contato com ela.


O QUE ACONTECEU COM A NOSSA INTUIÇÃO?

 

  Valorizamos mais e mais as qualidades tipicamente  yang /masculinas e nos esquecemos que essa é só metade da realidade.    Ilustração    Fatinha Ramos

Valorizamos mais e mais as qualidades tipicamente yang/masculinas e nos esquecemos que essa é só metade da realidade.

Ilustração Fatinha Ramos

Neste caminho de autoconhecimento e organização interna que nós estamos percorrendo juntos por meio dos textos deste blog, fiquei com vontade de falar sobre a intuição como uma parte crucial da nossa psique que vem sendo negligenciada há muito, muito tempo.

Não podemos separar o desenvolvimento da humanidade do desenvolvimento da nossa psique. Elas são paralelas. Me explico: as escolhas que fazemos e as decisões que tomamos, tanto de forma individual como de forma coletiva, são sempre um espelho das nossas crenças e características internas naquele momento, certo? Mas ao mesmo tempo, o momento histórico em que nós vivemos influencia a nossa forma de ver o mundo.

Por isso, se na história humana caminhamos em direção a uma ciência, religião, política, economia, urbanismo etc mais voltados para uma vertente específica de pensamento, que é a vertente masculina, racional, individualista, competitiva, prática, mental, construtiva (1), isso significa que nossa psique coletiva também estava dando prioridade e valorizando o desenvolvimento de qualidades mais masculinas dentro de si.

Conforme isso foi acontecendo, lenta e continuamente, ao longo dos séculos, fomos nos distanciando do complemento feminino, intuitivo, sistêmico, cooperativo. Passamos a enxergar o lado masculino do mundo como o lado natural e nos esquecemos que essa é só metade da realidade, metade de nós, e mais importante para o objetivo deste texto, metade da forma de obter informações a respeito do mundo.

Conseguiu me acompanhar até aqui?

Antes de continuar, quero deixar claro, para não haver confusão, que não estou atribuindo juízo de valor ao fato de sermos, hoje, uma sociedade mais masculina do que feminina. Em vez de julgar, eu gosto de observar e dizer "Hmmm, olha para que lado nós acabamos indo!"

Além disso, tampouco estou falando de gênero, e sim de qualidades femininas e qualidades masculinas, e ambas são muito importantes porque se complementam e se equilibram quando existe espaço para as duas se expressarem. E por último, não estou passando nem perto de escrever um texto sobre feminismo e machismo, porque quero evitar qualquer linguagem que possa engatilhar nossas defesas, resistências e preconceitos.

Pois bem, continuemos!

O masculino/yang olha para fora e entende que as únicas informações válidas são as que podem ser medidas e analisadas por dados objetivos e instrumentos concretos de mensuração. Isso porque ele se apoia nos sentidos concretos, aqueles que estão em contato direto com o mundo de fora do indivíduo. E tudo bem! É para isso que essa metade da psique existe, para colher informações de fora e montar um banco de dados do mundo concreto que nos rodeia. Sem essa metade, nós não conseguiríamos fazer isso.

Já o feminino/yin olha para dentro e tem facilidade em lidar com o que os sentidos concretos não captam, porque não precisa deles para entender o mundo, já que se apoia nos cinco sentidos sutis. Para a parte feminina da nossa psique, portanto, as informações colhidas nas entrelinhas de uma conversa são tão válidas e reais quanto se houvesse, diante dos nossos olhos, um cartaz enorme escrito, em letras garrafais, "na verdade eu queria muito que você me chamasse para sair amanhã".

Os pesquisadores do Instituto HeartMath, depois de mais de 50 anos de pesquisas (usando metodologias validadas pela ciência moderna, ha!), concluíram que "o corpo está conectado, pela percepção dos sentidos, a um campo energético que envolve as informações que nós atribuímos à intuição." (2)

Ou seja, existe uma camada de informações a respeito do mundo, das pessoas, das nossas relações e de nós mesmos, que nos rodeia e está presente o tempo todo, mas que não pode ser captada pelos sentidos concretos. E por que não? Porque eles não estão sintonizados com essa camada. É para isso que existem os sentidos sutis.

Portanto, lá atrás em nossa história, quando decidimos que só iríamos validar as informações que fossem captadas pelos nossos sentidos concretos, começamos a nos distanciar de nossa intuição, e aos pouquinhos, fomos nos esquecendo como usá-la e acessá-la. 


INTUIÇÃO E AUTOCONHECIMENTO

 

No processo de elaboração dos textos aqui do blog e do material mais extenso que talvez vire um livro, talvez um curso, talvez os dois, eu estou mergulhando nas minhas anotações, diários e memórias dos últimos 20 anos, quando entrei na faculdade de psicologia e, pouco tempo depois, fiz minha primeira sessão de terapia.

Uma coisa que eu não percebi na época, mas que hoje está muito, mas muito clara para mim, é que o processo de terapia, ao ir organizando nossos conteúdos, traumas e feridas, e ao abrir espaço para entrarem nossos potenciais não desenvolvidos, vai nos colocando cada vez mais em contato com a intuição. Isso faz sentido se pensarmos que a intuição diz respeito aos sentidos sutis, que só se desenvolvem quando a gente consegue olhar um pouco mais para dentro, certo?

Nestes meses de pesquisa, comecei a perceber que a intuição não é só um jeito de conhecer e captar os sinais externos do mundo, como as entrelinhas de uma conversa, mas ela é uma das ferramentas que usamos para nos alinharmos com o nosso caminho, com o que nos faz bem, com o que nos preenche, com o que viemos desenvolver na vida, com os nossos superpoderes.

Por isso, quando a gente entra nesse mundo da autodescoberta, vamos nos deparar, em algum momento, com nossa intuição. Ao mesmo tempo em que ela se desenvolve naturalmente conforme vamos organizando nossa psique, ela também é uma das melhores (talvez a melhor?) ferramenta que possuímos para nos guiar e nos ajudar a fazer as escolhas mais alinhadas com cada momento específico de nossas vidas.

Neste momento, eu espero que você esteja pensando "Então como posso desenvolver a minha intuição, Verena?".

Na verdade, eu ainda não sei se acho que nós desenvolvemos nossa intuição ou se o processo se parece mais com fazer contato com ela. Acho que talvez seja um pouco dos dois.

A intuição é um processo natural humano. Nesse sentido, a gente só precisa aprender a fazer contato, já que ela provavelmente está falando com a gente o tempo todo. Mas assim como o pensamento lógico é desenvolvido na escola, a intuição também é como um músculo que nós podemos - e devemos, pelamor! - desenvolver.

Nós costumamos chamar a intuição de sexto sentido, e eu entendo perfeitamente o por quê, mas ela não é um sentido, e sim um processo. Processos são modos de fazer as coisas. Assim, Francis P. Cholle define intuição como "o processo que nos dá a habilidade de saber diretamente de algo sem o raciocínio analítico" (3).

Se tivéssemos sido treinados desde cedo a valorizar essa qualidade natural da nossa psique, este texto provavelmente estaria seguindo outro rumo. É muito difícil para uma cultura apoiada na energia masculina, mais concreta, entender as coisas mais sutis, e é por isso que as pessoas nascidas e criadas nesse cenário, como nós, não sabem fazer contato com sua própria intuição. Por isso, o que podemos fazer para voltarmos a desenvolver esse "músculo" da nossa psique, é o mesmo que faríamos se estivéssemos tentando desenvolver qualquer outra habilidade nova, como dirigir ou desenhar: temos que praticar!


EXERCÍCIO PARA OUVIR A INTUIÇÃO

 

Ao propor estes exercícios, não quero ser simplista nem quero que você ache que a intuição é um ser mágico com o qual entramos em contato para fazer perguntas sobre nosso futuro. A intuição, conforme mencionei acima, não passa pelo nosso pensamento racional. Ela vive apenas no presente e não faz contato com as angústias do passado ou com as ansiedades a respeito do futuro. Ótimo, né?

Antes de qualquer coisa, é legal você saber diferenciar a voz da sua mente e a voz da sua intuição. Para mim, por exemplo, quando estou pensando com a minha mente, é muito claro que é quase como se houvesse uma voz falando pertinho do meu ouvido. Essa voz é agitada e está sempre emitindo opiniões a respeito de qualquer coisa que esteja acontecendo comigo, a qualquer momento.

Reserve alguns segundos para perceber como é a voz da SUA mente. A maioria das pessoas com as quais eu já conversei sobre isto, também reconhece a voz da mente como um som que está dentro ou bem pertinho do ouvido. Precisamos saber reconhecer essa voz para sabermos quando é ela que está falando.

Se você nunca tinha pensado nisto antes e nunca tinha tentado diferenciar as duas vozes, fica tranquila/o. Com o tempo, vai ficar mais fácil saber quem está falando contigo.

Uma vez detectada a voz da mente racional, se você for mudando o seu foco de percepção, quase como se estivesse mudando a estação do rádio, vai perceber que lá no fundo tem um outro som. Ele não é agitado. Ele é calmo. Ele está sempre em estado de presença e calma. Sempre. Completamente diferente da outra voz. Para mim, essa voz parece sair de um lugar que fica no fundo da minha cabeça, e algumas vezes, na região do meu coração. Muitas pessoas também sentem como se essa voz viesse das entranhas, na região da barriga.

Comece fazendo esse exercício várias vezes por dia, e perceba como as duas vozes têm qualidades totalmente diferentes. Mesmo quando a cabeça está no auge de sua agitação, a intuição está sempre tranquila e presente.

Agora que você já sabe diferenciar as duas vozes, o próximo passo é conseguir ouvir o que a intuição tem para te dizer. O melhor jeito de começar é escrevendo. É assim que eu sempre fiz, e antes de escrever este texto, pesquisando um pouco o que outros autores sugerem como exercício para entrar em contato com a intuição, descobri que todos eles trabalham com a escrita.

Você só precisa sentar em algum lugar relativamente calmo, com papel e caneta (digitar no celular ou no computador não tem o mesmo efeito) e jogar a primeira pergunta. Escreva a pergunta no papel e espere a resposta vir. Se a primeira a responder for a mente racional, mude o dial do rádio e sintonize com a intuição, agora que você já sabe reconhecê-la.

Nossa mente racional, analítica, problematizadora fica ma-lu-ca com a simplicidade desse exercício: "Será que sou eu que estou inventando? Será que estou fazendo o exercício direito?". Provavelmente você está fazendo certo, e se não estiver, nada de mal vai acontecer! Ouça sem julgamento e permita que o diálogo interno aconteça sem medo ou resistência. Talvez você se veja escrevendo palavras ou frases que não fazem sentido para sua mente racional, ou talvez você se veja obtendo respostas que jamais imaginava que viriam. Comece pensando que é uma brincadeira, e siga adiante!

 

  Para começar a ouvir o que a intuição tem para te dizer, um bom exercício é escrever.    Ilustração    Shea Paper Co   .

Para começar a ouvir o que a intuição tem para te dizer, um bom exercício é escrever.

Ilustração Shea Paper Co.

Hoje em dia, eu penso que tentar tomar decisões importantes me apoiando somente na minha mente analítica e racional, é ouvir somente metade da história e usar somente metade dos recursos que tenho ao meu dispor. Por isso, uso este exercício constantemente quando preciso decidir meus caminhos e quando sinto que estou um pouco confusa a respeito de qualquer tema da minha vida.

Como eu disse antes, ao longo do nosso processo de autoconhecimento, conforme vamos nos organizando internamente, naturalmente vamos fazendo mais contato com a intuição. E ao mesmo tempo, quanto mais aberto está nosso contato com ela, mais alinhados vamos ficando com o que nos faz bem. É uma via dupla de crescimento.

Com o tempo, você vai perceber que sua intuição é a melhor "pessoa" para perguntar qual tipo de terapia é mais adequada para você, quais livros vão te ajudar a responder suas dúvidas, qual proposta de emprego está mais alinhada com os superpoderes que você tem a oferecer e com as qualidades que quer desenvolver.

Eu sinto que estamos vivendo uma época de transição de consciência e acho bem legal estar viva para testemunhar esse processo. O mundo parece caótico, e em vários aspectos, está mesmo. Mas ao mesmo tempo sinto que estamos integrando, de forma contínua e irrevogável, os aspectos femininos que escolhemos ignorar por tanto tempo. Isso é ótimo! Dentro de algum tempo, observar o que sentimos a respeito de qualquer assunto vai ser tão natural quanto levar em conta o que pensamos. E com isso, vamos conseguir entrar em contato e nos responsabilizar, finalmente, pelas consequências emocionais das decisões - individuais e coletivas - que tomamos todos os dias. 

Fico feliz que você esteja fazendo esse caminho comigo.

Referências

(1) SIQUEIRA, Milene. Yin - Yang: Compreendendo o sentido vibratório da polaridade - Parte 1. Doce Limão.

(2) What is Intuition?HeartMath Institute, 2012

(3) CHOLLE, Francis P. What Is Intuition, And How Do We Use It?. Psychology Today, 2011

(4) LIVELY, Jess. How to Hear From Your Intuition TodayJess Lively, 2014

tags: intuição


 

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