SOBRE A INTUIÇÃO (parte 1: o papel dos sentidos sutis)

  Foto de  Ahmed Saffu   - Os cinco sentidos  concretos  captam apenas uma parte das informações disponíveis no mundo.

Foto de Ahmed Saffu - Os cinco sentidos concretos captam apenas uma parte das informações disponíveis no mundo.

Eu cresci achando que intuição era um dom reservado a alguns poucos sensitivos privilegiados. Além disso, eu achava que a intuição era um movimento incontrolável, uma reação espontânea que pipocava na cabeça dessas pessoas nos momentos mais inesperados, trazendo cenas de tragédias futuras ou sensações ruins a respeito de algumas pessoas ou lugares. Uma coisa assim meio bênção, meio maldição.

Como eu não me encaixava em nenhum dos requisitos acima, concluí que eu não era uma pessoa intuitiva. Desencanei e fui viver a minha vida.

Foi só quando virei adulta e comecei a investigar essas coisas psicológicas que eu adoro, que descobri que intuição é uma qualidade inata de cada ser humaninho que caminha por aí. E que eu sou intuitiva, sim! E você também.

O que eu descobri foi que a intuição diz respeito a um nível muito sutil dos nossos cinco sentidos que não transita, necessariamente, pela nossa percepção consciente. É uma expressão natural dos cinco sentidos que, todos sabemos, são os veículos pelos quais nós conhecemos o mundo. 

Francis P. Cholle define intuição como "o processo que nos dá a habilidade de saber diretamente de algo sem o raciocínio analítico, conectando a lacuna entre as partes consciente e não-consciente de nossa mente, assim como entre instinto e razão"(1). E quem está por trás, atuando para a intuição fazer o seu trabalho? Os cinco sentidos!

Os cinco sentidos concretos, esses que a gente conhece e estuda na escola, que enviam informação para o cérebro captada pelas terminações nervosas dos órgãos dos sentidos (olhos, ouvido, nariz, papilas gustativas e pele) são as nossas principais fontes de informação sobre o mundo. 

Tudo o que você sabe sobre si, sua família, suas memórias, sua vida, foi recolhido através dos seus cinco sentidos. Pensa aí um pouco e você vai perceber. Se você não tivesse a visão, nem a audição, nem o tato, nem o paladar, e nem o olfato ativados, se nenhum desses sentidos funcionasse, você não teria experiência nenhuma de vida. Ne-nhu-ma.

"Ah, mas eu continuaria respirando." Ok, mas sem o sentido do tato você não sentiria a sua respiração entrando e saindo pelo nariz. "Meu coração continuaria batendo." Certamente, mas você não teria como perceber isso.

Algumas pessoas, na falta da visão ou da audição, recolhem informações com os sentidos restantes, e constroem o seu próprio retrato do mundo, que não é nem mais completo nem mais incompleto que os outros, porque no fundo não importa se você vê todas as cores, se não consegue enxergar a cor vermelha ou se não enxerga nada. O seu mundo é como você o constrói dentro de si. E não existe o mundo. Existe o seu mundo.

Esses sentidos, que eu estou chamando de concretos, são os únicos que a maioria de nós desenvolve e aprende a usar. Maaaas, queridas leitoras e queridos leitores, nós temos outra fonte de coleta de informação, igualmente disponível, acessível e importante, que eu aprendi a chamar de sentidos sutis. 

 

"Essa história não está me cheirando bem."

Imagina os seus cinco sentidos. Agora imagina se, em vez de estarem abertos para fora, eles estiverem voltados para dentro. Não, não estou falando da parte interna do seu corpo (que, por sinal, também envia informações ao cérebro pelos sentidos concretos). Mais para dentro, bem profundo mesmo, naquele lugar que é tão abstrato que a gente nem consegue imaginar muito bem: o inconsciente.

  Foto de  Matthew Tkocz   - A intuição é captada por sentidos sutis como o toque da bolha de sabão na pele.

Foto de Matthew Tkocz - A intuição é captada por sentidos sutis como o toque da bolha de sabão na pele.

Imagina uma visão, uma audição, um paladar, um olfato e um tato tão, mas tão sutis, tão rarefeitos (se isso te ajudar a visualizar) que eles não estão sintonizados com as partículas de odor de um perfume ou a pressão do toque na pele, e sim com os sinais visuais, táteis, auditivos etc que o seu inconsciente está captando e traduzindo.

A intuição, literalmente, é a parte de nós que lê o que está nas entrelinhas, que ouve o que está além do que esta sendo dito, que percebe quando uma situação não está cheirando bem, que capta o amargor das palavras de alguém, que sente a pressão de uma responsabilidade jogada nas suas costas.

É ela que complementa, com dados sutis, nossas interações com as pessoas, lugares e situações que nos rodeiam.

É graças à percepção sutil da intuição que você olha para o rosto do seu colega de trabalho e resolve, sem saber muito bem por que, não mandar um abraço para a esposa dele desta vez, e descobre, dias depois, que eles tinham acabado de se separar. É a intuição dos sentidos sutis que capta uma animosidade no ar quando a criança entra na sala e sabe que algo não está bem, mesmo que os pais tentem disfarçar a briga recente com sorrisos e carinhos. É a intuição que te lembra de ligar para alguém minutos antes do telefone tocar e ser aquela pessoa do outro lado da linha. É a intuição que te faz fechar um bom negócio, mesmo que as análises conscientes e a lógica racional tenham concluído que não era uma boa ideia.

A mente intuitiva é o complemento da mente racional. Uma está voltada para dentro e a outra está voltada para fora. As duas captam o mesmo mundo diante de você, mas cada uma está sintonizada a uma frequência diferente. 

Nós costumamos chamar a intuição de sexto sentido, e eu entendo perfeitamente o por quê, mas eu a vejo mais como uma ampliação (ou um aprofundamento) dos sentidos que nós já possuímos. Na verdade, o mundo concreto que nós conhecemos e somos estimulados a explorar é só uma parte do que, de verdade, nós podemos captar.

No próximo post desta série vamos falar sobre os vícios de pensamento que fazem com que nós ainda associemos intuição com dúvida e abstração, e nos apoiemos, quase totalmente, nas informações que vem dos sentidos concretos.

Quanto mais eu mergulho nesse assunto, mais eu acho interessante, então se preparem, porque pode ser que eu não queira mais parar de falar!! 


Referências Bibliográficas

(1) CHOLLE, Francis P. What Is Intuition, And How Do We Use It?

(2) HeartMath Institute. What is intuition?