CHAMAR AS COISAS PELO NOME CERTO

A sutil arte de saber o que você está sentindo.


  Usamos emoções falsas para mascarar as emoções verdadeiras.    Ilustração de  James Gilleard

Usamos emoções falsas para mascarar as emoções verdadeiras.

Ilustração de James Gilleard

No final do maravilhoso Na Natureza Selvagem (1), o personagem principal, que havia adotado um pseudônimo e viajado milhares de quilômetros fugindo de si mesmo, assina um bilhete usando o seu nome verdadeiro. O filme termina com a voz dele repetindo "Chamar cada coisa pelo seu nome certo".

Eu acho que uma das formas mais proveitosas de resolver um conflito, seja com você mesmo ou com outra pessoa, é começar assumindo exatamente o que se está sentindo. Dar o nome certo para o sentimento. Mas, uau, como isso pode ser complicado!

Vamos começar lembrando a coisa mais linda que você já aprendeu neste blog (ok, uma das coisas mais lindas): o inconsciente que, tadinho, não fala nossa língua, cria os conflitos para tentar falar com a gente. Cria, em itálico mesmo, para ficar bem claro. Você está lá, vivendo a sua vida, e de repente alguma coisa te incomoda - o comentário de alguém, uma lembrança, uma foto no Instagram - e você sente frustração, ansiedade, inveja, seja o que for. Isso é um conflito. Isso é o seu inconsciente dizendo que alguma coisa não está encaixando e incomoda.

Outro dia, eu estava escrevendo em um caderno que eu uso para tirar minhas ideias da cabeça quando saiu a seguinte frase: "Seria ótimo colocar o projeto X no mundo, mas me dá uma preguiça!". Imediatamente depois de escrever essa frase, minhas mãos continuaram se movendo: "Preguiça, não! Resistência. Estou resistindo. Resistência é a palavra certa."

Dizer que estou com preguiça era confortável, porque essa palavra não me suscitava nenhuma emoção. Era só a parte mais superficial e visível das minhas emoções, porque nós enxergamos primeiro só o que damos conta de ver: Ah, estou com preguiça, vai dar muito trabalho. O inconsciente faz de tudo para manter em segredo as emoções e sentimentos guardados dentro dele, porque em algum momento da vida aprendemos que sentir aquilo era vergonhoso, indigno, feio. Então a gente usa emoções falsas para mascarar as emoções verdadeiras. Uma loucura!

Se eu tivesse comprado a ideia de que estava com preguiça, teria perdido uma oportunidade enorme de enxergar o que realmente estava por trás: resistência em colocar esse projeto no mundo, porque ele me encanta e me emociona, e ao mesmo tempo me dá medo e me tira totalmente da minha zona de conforto. Deu para perceber a diferença?

"Mas qual é o problema de ficar na emoção superficial?", posso ouvir algumas mentes se perguntando. O problema, minha amiga e meu amigo, é que essa autoenganação é a fonte de nossas ansiedades, que viram frustrações, que viram mais ansiedade, e um belo dia você acorda e sente que está infeliz. Você e eu somos complexos demais, lindos demais, profundos demais para nos contentarmos com a superfície. 

 

Nosso mundo emocional é cheio de nuances. Cada uma das emoções, do medo à tristeza, se expressa de diversas formas diferentes, como uma cor que pode ter várias tonalidades. Encontrar o nome certo para a sua emoção é uma arte e um exercício maravilhoso de aceitação e entrega. Dizer "Sim, eu estou resistindo a essa ideia", em vez de fingir que o que eu sinto é preguiça, é o que me permite ser sincera comigo e encarar o medo que eu sinto de encarar o meu projeto. Eu mereço essa sinceridade.

  Nosso mundo emocional é cheio de nuances, como uma cor que pode ter várias tonalidades.    Imagem sem crédito, encontrada no Pinterest.

Nosso mundo emocional é cheio de nuances, como uma cor que pode ter várias tonalidades.

Imagem sem crédito, encontrada no Pinterest.

Da mesma forma, admitir que olhar o Instagram de uma pessoa que eu admiro muito tem me causado mais ansiedade do que alegria, é o primeiro passo para eu assumir que uma parte de mim está projetando nessa pessoa os meus desejos mais sinceros de ter uma presença nas redes sociais tão linda e transformadora quanto a dela. Admitir, mesmo que seja só para mim, o que eu REALMENTE estou sentindo, é o mínimo que eu devo a mim mesma. Não faz sentido eu mentir para mim.

E mais importante do que isso, dar o nome certo para o que estamos sentindo é o que nos permite MUDAR.

Pensa bem: se eu estou criando mil resistências internas ao meu projeto mas me engano achando que o que eu tenho é preguiça, o que vai acontecer? Eu vou procurar meios de vencer a preguiça, mas a verdadeira causa da minha ansiedade, que era a resistência, vai continuar escondida e agindo. Isso parece maluco e contraproducente mas é o que fazemos O TEMPO TODO! O insconsciente é assim mesmo, meio enganador, porque o que está guardado lá dentro são coisas que nós achamos que precisamos esconder.

Marcos passou meses criticando o irmão que havia aceitado uma grande quantia de dinheiro dos pais para fazer um curso no exterior. Ele rotulava o irmão de egoísta por "usar" o dinheiro dos pais, e isso o mantinha em sua zona de conforto, porque ele se sentia justo e protetor dos bens da família. Mas o que estava por baixo de seu ressentimento era a frustração de ter alimentado um sonho parecido por anos e não ter se permitido pedir ajuda para realizá-lo. Ele achava estar ressentido com o irmão, mas estava frustrado consigo mesmo.

Natália sofreu de crises de ansiedade por 2 anos antes de conseguir admitir que o que sentia era muito pesar, e não alívio, por ter cancelado sua cerimônia de casamento após descobrir que o noivo tinha um outro relacionamento. Todos esperavam que ela se sentisse aliviada, e ela mesma temia admitir que se sentia solitária e profundamente entristecida, por achar que isso iria contra a ideia de mulher empoderada e independente que ela tinha de si mesma. Foi só depois que ela conseguiu admitir PARA SI MESMA que podia ser uma mulher forte e ao mesmo tempo sentir tristeza por ter sido traída, que suas crises cessaram.

 

Mas isso não é fácil. É preciso ter um vocabulário de sentimentos, um certo poder de observação, para ler o que está por trás das emoções. E isso a gente aprende com o tempo, com a prática. Inteligência emocional é algo que se desenvolve, do mesmo jeito que a gente desenvolve a inteligência lógica na infância.

Um bom jeito de começar é se observando. Pega um papel e começa a conversar com você mesmo, como se você fosse um entrevistador curioso ouvindo uma história pela primeira vez. Você faz a pergunta e observa o que vem de resposta, mais ou menos como eu fiz quando estava falando sobre meu projeto. No começo é estranho, não desenrola muito bem, mas TUDO nesta vida depende de prática, e com o tempo vai ficando simples. Escrever é um dos meios mais eficientes de se acessar o inconsciente.

Outro jeito é procurar um psicoterapeuta. Em tempos de abundância de conteúdos online sobre autoconhecimento (como este blog!), eu ainda sou grande entusiasta da psicoterapia tradicional. Precisamos de uma pessoa de fora para enxergar nossos pontos cegos. E quem já fez terapia sabe que não tem nada mais irritantemente maravilhoso do que contar a sua história para a psicóloga e ouvir, como resposta, um "Não é bem preguiça que você está sentindo com relação a esse projeto, né, Verena? Será que não tem alguma resistência aí?".

Droga! Ela me desmascarou!

 


Referências

(1) Na Natureza Selvagem, Direção: Sean Penn. EUA: Paramount Vantage, 2007