ODE ÀS DIFERENÇAS

Sobre conhecer e desenvolver os nossos superpoderes.


  Nós somos tão diferentes uns dos outros, e isso é tão óbvio do ponto de vista físico, que me surpreende que demoremos tanto para entender isso do ponto de vista emocional.    Ilustração de  Csaba Khilenberg

Nós somos tão diferentes uns dos outros, e isso é tão óbvio do ponto de vista físico, que me surpreende que demoremos tanto para entender isso do ponto de vista emocional.

Ilustração de Csaba Khilenberg

PRIMEIRA PARTE - INTRODUÇÃO

 

De todas as coisas que eu acho muito interessantes sobre os seres humanos, uma das que mais me encanta são as diferenças. Nós somos tão diferentes uns dos outros, e isso é tão óbvio do ponto de vista físico, que me surpreende que demoremos tanto para entender isso do ponto de vista emocional. 

Imagine o seu local de trabalho. Digamos que você trabalhe com mais 4 ou 5 pessoas na sua equipe/gerência/departamento. Alguns falam baixo e outros falam alto. Alguns executam uma tarefa em minutos e outros executam a mesma tarefa em horas. Alguns gostam de trabalhar até mais tarde e outros preferem começar o expediente mais cedo. Essas pequenas características são amostras visíveis de como somos diferentes.

Mas por trás desses traços mais óbvios está otra cosita más, algo tão íntimo, tão individual, que a gente nem percebe que existe. Algo tão NATURAL para nós, que a gente tende a não perceber que é só nosso. Estou falando do que está por trás das aparências, as características que fazem de você alguém único e singular: os seus superpoderes

Deixa eu te contar como foi que caiu a minha primeira ficha a esse respeito.

Eu estava na faculdade de psicologia e me deparei com o conceito dos Tipos Psicológicos de Carl Jung. Ele não foi o primeiro teórico (nem o último) a descrever nossa psique em termos de suas diferenças, mas foi a primeira vez que eu entendi isso na prática. Até então, apesar de eu perceber que algumas pessoas eram mais tímidas que outras, algumas mais atléticas que outras e assim por diante, eu não tinha me dado conta de que as diferenças não eram só na aparência (no estilo "sou mais caseiro" ou "sou mais festeiro") mas sim na forma de absorver e interagir com o mundo.

Naquela época eu tinha 20 e poucos anos e estava passando por um conflito interno com uma das maiores referências da minha vida: meu pai. Por algum motivo, ele e eu não estávamos mais nos entendendo como antes e eu não conseguia entender o por quê. Quando comecei a estudar os tipos psicológicos e entendi melhor como eu funciono, ficou muito claro para mim que, apesar de aparentemente nós sermos muito parecidos, algo dentro da gente enxergava e interagia com o mundo ao nosso redor de formas completamente diferentes. Perceber isso foi libertador.

O que acontece é que nós parecemos iguais mas, no fundo, somos mais diferentes do que conseguimos perceber. É como o que acontece com a nossa aparência física. Todos temos a mesma estrutura humana básica programada no DNA - temos cabeça, tronco, membros, órgãos etc - mas essa estrutura se apresenta de muitos jeitos diferentes, como a cor de cabelo, tamanho dos olhos, formato do nariz, proporção do tronco etc. Em termos psicológicos, acontece a mesma coisa: temos uma estrutura semelhante que serve como recipiente para toda uma diversidade de personalidades.

 


SEGUNDA PARTE - AS DIFERENÇAS

 

Em linhas muito, mas muito gerais, podemos dizer que alguns de nós interagimos com o mundo através das nossas emoções, no sentir. Somos sensíveis às mudanças de humor das pessoas ao nosso redor, tomamos decisões baseadas nas sensações que alguma situação nos provoca, tendemos a saber o que sentimos sobre as coisas, mesmo que não saibamos colocar em palavras o que pensamos sobre aquilo. 

Outras pessoas tendem a interagir com o mundo de um jeito mais racional, no pensar. Nem sempre essas pessoas sabem dizer o que estão sentindo em determinados momentos, mas elas conseguem elaborar de forma lógica o por quê de terem decidido seguir o caminho A em vez do caminho B e se sentem mais seguras quando têm a oportunidade de pensar e refletir bastante sobre as situações.

Já outras pessoas tendem a interagir com o mundo através do movimento, no agir. Para resolver as coisas, elas se movimentam. Mexem o próprio corpo para organizar a cabeça, mexem a energia do ambiente para tomar uma decisão, se sentem à vontade no meio da movimentação.

Também existe o grupo de pessoas que interagem com o mundo de uma forma mais concreta, no fazer. Para entender o mundo, elas precisam fazer algo no mundo. Assim, essas pessoas se envolvem com suas comunidades realizando coisas concretas, organizam seu ambiente externo para poder organizar o ambiente interno, e encontram calma (e também se refugiam), na execução e organização de tarefas do dia a dia.

Nenhum de nós se encaixa totalmente em apenas um desses grupos já que somos uma combinação bem singular de um pouco de cada um. Aliás, eu listei apenas as características gerais de 4 tipos bem diferentes de personalidades para mostrar como podemos ser tão lindamente distintos, e ao longo da história vários teóricos buscaram formas de reconhecer e categorizar as nossas diferenças e criaram classificações tão diversas como os Tipos Psicológicos de Carl Jung (1) , os Cinco Elementos da Medicina Chinesa (2) e as descrições de personalidades da Astrologia Simbólica (3).

Todas essas teorias são um convite a abrirmos a percepção para as riquezas das nossas singularidades. A beleza está não só em reconhecer as nossas semelhanças, mas também em enxergar e valorizar as nossas diferenças. Se fôssemos todos movidos a ação, não existiria espaço para a continuidade que vem da contemplação. Se fôssemos todos puro pensar, não construiríamos os vínculos que se estabelecem com o sentir.

Cada um de nós possui uma composição muito única de características que, a meu ver, não foram aprendidas em casa, na escola ou na rua. Elas podem ter sido reforçadas ou reprimidas ao longo de nossas vidas, mas nós já nascemos com a tendência a absorvermos e interagirmos com o mundo de acordo com uma composição tão única quanto as nossas impressões digitais.

Esses são os nossos superpoderes

 


TERCEIRA PARTE - O ESPELHAMENTO

 

  Nascemos com uma série de características bem particulares, que nos tornam únicos e irreproduzíveis.    Ilustração  Loulou and Tummie

Nascemos com uma série de características bem particulares, que nos tornam únicos e irreproduzíveis.

Ilustração Loulou and Tummie

Está vendo essa ilustração dos insetos? Digamos que você seja um pernilongo. Você sabe que é um pernilongo, percebe que voa com facilidade porque tem o corpo bem leve e que gosta de se alimentar de sangue. Ok. Mas digamos que o seu irmão tenha nascido besouro. Ele é maior que você, tem a casca dura e não levanta vôo com a mesma leveza.

Ter um irmão besouro pode fazer você se sentir diminuído por não ser tão grande e vistoso. Isso é o que acontece quando nós nos julgamos em comparação com o outro.

Por outro lado, ter um irmão besouro pode fazer você começar a chamá-lo de lerdo e preguiçoso porque ele não voa com a mesma agilidade que você. Isso é o que acontece quando nós julgamos o outro em comparação conosco.

Me acompanhe na seguinte linha de raciocínio. A gente nasce com os dois olhos voltados para fora do nosso corpo. Os olhos fazem o quê? Enxergam! Mas como os meus olhos enxergam naturalmente o que está bem na minha frente, eu vejo mais os outros do que a mim mesma, já que eu não consigo me enxergar a menos que me olhe no espelho. Os outros, então, passam a ser o meu espelho.

Usar as outras pessoas como referência para se conhecer melhor é uma estratégia ótima. Isso tem até um nome, espelhamento. Também existem outras formas de treinar a auto-observação, como uma boa terapia ou um bom trabalho de autoconhecimento. Na verdade a gente sempre está gravitando entre observar o outro e se auto-observar, mesmo quando estamos fazendo isso para nos criticar, em vez de nos aceitar.

Quando você é um pernilongo incrível e cheio de características que te tornam único e singular, mas vive se comparando com outros insetos e só consegue enxergar o que eles têm e você não, o resultado acaba sendo muita ansiedade, busca por perfeccionismo, baixa autoestima e sensação de inadequação. Isso acontece porque você ainda não aprendeu a reconhecer os seus superpoderes, e por isso não sabe usá-los a seu favor ou, ainda mais forte, porque você confunde os seus superpoderes com defeitos e tenta negá-los ou reprimi-los.

Mas quando você olha para a sua pernilonguice e percebe quais são os pontos fortes e os desafios de ser um pernilongo, você passa a olhar para os besouros, joaninhas e gafanhotos ao seu redor e consegue reconhecer, valorizar e respeitar as características de cada um. Dessa forma, os conflitos que você tem com as outras pessoas (ou consigo) deixam de ser vividos de forma destrutiva. Você passa a ver as diferenças entre as pessoas como qualidades e oportunidades de aprendizado, em vez de problemas e fontes de desentendimentos. As diferenças deixam de ser ameaças.

 


QUARTA PARTE - OS SUPERPODERES

Conheci a Gabriela* no meu consultório. Ela era uma mulher jovem, de 20 e poucos anos, e estava vivendo um super conflito interno. Gabriela era atriz e fazia parte de um grupo de artistas que viviam em comunidade e compartilhavam tudo o que tinham. Ela, no entanto, morava sozinha em um pequeno apartamento. Apesar de se sentir à vontade entre eles, Gabriela também sentia desconforto por se achar séria e reservada demais em comparação com o grupo.

Ela me procurou dizendo "Verena, tira essa seriedade de dentro de mim!". Na concepção dela, seu jeito natural de lidar com a vida, seu "jeito sério", não era condizente com a identidade de uma artista, e por isso ela se cobrava e se sentia inadequada. Fizemos um trabalho lindo ao longo de vários meses e a principal coisa que Gabriela teve que descobrir foi que o que ela chamava de seriedade era um de seus superpoderes.

Gabriela era atriz, assim como seus colegas, e por isso compartilhava com eles várias das características visíveis que se esperavam daquele grupo: ela era criativa, sensível, desapegada, compartilhava gostos e posicionamentos políticos com eles. Mas ela se sentia inadequada porque o jeito que a artista que existia dentro dela interagia com o mundo era através do que ela chamava de seriedade, que depois nós decidimos, juntas, rebatizar de maturidade. Para ela só fazia sentido ser artista (ou fazer qualquer outra coisa, na verdade) com uma certa prudência, que lhe trazia uma habilidade LINDA de olhar para as coisas com sabedoria, buscando algum propósito. Isso a diferenciava de seus colegas e a deixava desconfortável.

Ela não tinha referências com as quais se comparar para reconhecer aquele traço de sua personalidade, integrá-lo e desenvolvê-lo, em vez de rejeitá-lo. Assim que a seriedade virou maturidade, toda a energia que Gabriela despendia tentando se livrar de algo que era naturalmente seu passou a ser redirecionada para fazer uso desse superpoder, que fazia com ela buscasse propósito e aprendizado nos projetos com os quais se envolvia. A busca por propósito lhe dava prazer porque, por ser um de seus superpoderes, era algo muito-muito natural para ela.  

O prazer e a naturalidade, aliás, são ótimas formas de reconhecer os seus superpoderes. Os ambientes nos quais nós crescemos acabam estimulando ou reprimindo algumas características naturais de cada criança de acordo com as qualidades, valores e sistemas de crenças daquela família, escola, comunidade etc. Mas os superpoderes continuam lá, prontos para serem reconhecidos e desenvolvidos.

Eu fui uma criança muito sensitiva em uma família bastante racional. Meu pai e minha irmã do meio, que foram grandes referências na minha infância, são práticos, pensam rápido, enxergam o mundo com suas mentes científicas, lógicas, preto-no-branco. Eu e minha mãe somos um pouco diferentes. Quando eu olho para uma situação ou um problema, eu não analiso imediatamente... eu sinto. Isso leva um tempinho, e só depois é que eu sei o que pensar a respeito daquilo e posso decidir como vou agir.

Depois nasceu minha irmã mais nova, que também tem uma mente lógica e racional, e eu fiquei em minoria. O que acontecia é que eu me sentia um tanto intimidada por essas mentes rápidas e certeiras deles. Me sentia meio burrinha, para dizer a verdade. E como essa coisa do sentir não era um dos superpoderes do meu pai e das minhas irmãs, eles também não entendiam por que eu não encontrava soluções para os problemas da mesma forma que eles. 

  Quando você reconhece os seus superpoderes, as diferenças deixam de ser ameaças.    Ilustração de  Csaba Khilenberg

Quando você reconhece os seus superpoderes, as diferenças deixam de ser ameaças.

Ilustração de Csaba Khilenberg


QUINTA PARTE - CONCLUSÃO

 

Nós somos como personagens de RPG (4). Sabe como é? Tipo aqueles jogos em que você decide se quer ser o mago, o guerreiro ou uma criatura. Um tem boas habilidades físicas mas não é muito sensitivo, outro é forte mas não é rápido, o outro tem alto poder de cura mas não é muito bom com a espada. Tem espaço para todos eles no jogo porque todas as habilidades são importantes e necessárias para chegar ao final da história, mas é impossível dominarmos todas elas.

Para mim, alcançar o amor próprio é conseguir enxergar que eu sou incrível PORQUE sou sensível e não APESAR da minha sensibilidade. Portanto, o caminho da autoaceitação tem duas fases, uma na qual nós descobrimos quais são nossos superpoderes e a outra na qual afinamos, modulamos e aparamos essas qualidades. Lembrem-se que uma das principais características de uma psique saudável é a flexibilidade, a capacidade de adaptação às mudanças do ambiente. Isso significa saber usar os seus superpoderes de formas diferentes em momentos diferentes e com pessoas diferentes, além de saber modulá-los (ou adaptá-los) de acordo com cada situação. 

No caso da Gabriela, era saber ser madura sem ser rígida, e conseguir entender que nem sempre o trabalho traria sabedoria e propósito como ela buscava. No meu caso, é entender que tomar decisões baseadas no meu sentir é o meu natural, mas que quando eu incluo um pouco de pensar, minha intuição fica ainda mais aguçada.

Além disso, assim como em um partida de RPG o guerreiro usa sua força e habilidades físicas para empunhar sua espada contra um monstro enquanto o mago, escondido, usa seu conhecimento e habilidades mentais para desenvolver um feitiço que vai tirá-los de lá, na vida real cada um tem algo a contribuir com os seus superpoderes dentro de qualquer grupo, qualquer encontro, qualquer relação.

Para terminar este texto, vamos esclarecer o seguinte: ninguém nasce sabendo reconhecer os seus superpoderes. É uma coisa que a gente aprende ao longo da vida, porque a nossa vida é toda baseada em aprendizados, e assim como temos que aprender a andar e a falar, também nos cabe aprender a nos conhecer

É por isso que a frase supostamente escrita na entrada do Templo de Apolo é tão verdadeira e acho que nunca estará desatualizada. Conhece-te a ti mesmo. A gente vai tentando, tateando e descobrindo em um processo contínuo que, se você começa a ver como uma brincadeira, passa a ser uma das coisas mais divertidas da sua vida.

 

* Todos os nomes usados nestes textos são modificados para preservar a identidade das pessoas citadas.


Referências

(1) LESSA, Elvina. A Teoria dos Tipos Psicológicos. IJRJ.

(2) MARIN, Giles. Os cinco elementos e as seis condições. Ed. Cultrix, 2010.

(3) RABELO, Claudia. Astrologia Psicológica: Simbolismo, Potência e Liberdade. Jung na Prática, 2016.

(4) Wikipedia - RPG (Jogo de Interpretação de Personagens)

 

 

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