Ep. 1 - "Eu não entendo como alguém consegue..."


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Neste episódio eu falo sobre os desafios de mantermos a tolerância nestes tempos de abundância de informações e de ideologias.

Como fazer para equilibrar a identificação com uma causa e o apego a essa identidade, que são duas coisas diferentes? Como fazer para defender uma bandeira sem perder a empatia? Como fazer para rejeitar ideias sem rejeitar pessoas?

Estou convidando vocês a exercitarem comigo a observação curiosa. Vamos observar o mundo, a gente, as nossas relações, as coisas que nós já temos como certas. E nessa observação, tentando não julgar muito, só observar mesmo, vamos ver o que vai acontecendo dentro da gente, porque quando começamos a olhar para as coisas a partir de um lugar interno de abertura algo começa a se transformar, e essa é a energia que de fato muda o mundo.


Anotações do episódio:

Brené Brown

A coragem de ser imperfeito - Brené Brown

Mais forte do que nunca - Brené Brown


Transcrição do episódio

Este é o primeiro episódio do podcast e eu fiquei me perguntando se tem um jeito simples de falar sobre a proposta do Metamorfose Ambulante. E tem! Assim como eu falei agora há pouco, no início do episódio, este aqui é um convite. Estou convidando vocês a exercitarem comigo a observação. Só isso. Bora observar o mundo, a gente, as nossas relações, as coisas que nós já temos como certas, sabe?

E nessa observação, tentando não julgar muito, só observar mesmo, vamos ver o que vai acontecendo dentro da gente. Por que quando a gente começa a olhar para as coisas desse lugar de abertura, algo começa a se transformar dentro da gente. É como se a gente fosse ficando mais empático e tolerante, que é uma coisa que acho que, se eu perguntar, todos nós, ou a maioria de nós, pelo menos, diríamos que gostaríamos de ser. Tolerantes e empáticos. 

Esta é uma época de abundância de informações, certo? A gente já sabe disso. Cada geração vive seus desafios, e eu acho que um dos nossos é aprender a ter maturidade e autonomia de pensamento em uma época em que as informações estão super disponíveis, super abundantes e, além de tudo isso, super polarizadas.

Tipo, como a gente chega no caminho do meio se estamos em plena era dos idealismos? Essa é uma das coisas que eu me pergunto constantemente, é tipo um exercício que eu faço conscientemente. Deixa eu olhar por este ângulo. Agora deixa eu olhar por este outro. Como fica a mesma situação se observada de cima e de baixo? Da esquerda e da direita?

E uma das coisas que eu tenho pensado é que talvez a gente esteja confundindo as coisas. Esse acesso ilimitado a notícias, informações e opiniões sobre tudo nesta vida, de alimentação a política, é perfeito pra gente abrir a cabeça. É um presentinho da Vida termos a oportunidade de acessar informações de todos os ângulos possíveis com um clique no Google. Mas não é isso que está acontecendo. A gente está levantando bandeiras e se apegando a elas, o que é um jeito de fechar a cabeça. Pelo menos aqui de onde eu estou vendo.

Existem outros ângulos e outras formas de ver as ideologias e as bandeiras porque tudo tem vários ângulos, é justamente isso que a gente vai estar falando aqui no Metamorfose. Mas continuando, aqui de onde eu estou vendo esse assunto, eu observo que uma das coisas que podem acontecer quando encontramos uma causa pela qual lutar é que corremos o risco de ficarmos mais fechados. Mas é porque levantar uma bandeira é uma coisa. Se apegar a ela é outra. O apego nos deixa rígidos, duros, limitados. A gente vai perdendo a abertura a entender o outro lado e vamos nos intoxicando das nossas próprias verdades.

Por exemplo: eu parei de consumir produtos derivados de animais há, nem sei mais, 5 anos, talvez. Não sou ativista do veganismo mas vamos supôr que eu fosse. Levanto minha bandeira de uma causa na qual eu acredito muito e começo a me identificar assim — Eu. Sou. Vegana

Mas o que acontece com a nossa Mente é que ela adora uma identidade para chamar de sua. E quando a gente se identifica com um rótulo qualquer, a gente entra numa caixinha. Até aí tudo bem. Não estou, de forma alguma, dizendo que isso é ruim nem bom. Aliás, como eu disse agora há pouco, se identificar é uma das coisas que a nossa Mente faz, então é normal. Mas vamos continuar com essa linha de raciocínio.

Quando a gente entra numa caixinha, já começa a polarização: os que estão dentro X os que estão fora. E como a nossa Mente categoriza e julga o tempo todo porque essa é uma das funções dela, é fácil começarmos a separar isso em bom e ruim. Quem está dentro da caixa comigo é legal, é a minha galera. Quem está fora são “os outros”. Deu para sentir como a gente já começa a fazer uma separação?

A gente faz isso na adolescência, que é quando estamos desenvolvendo as nossas identidades, e nessa época tudo bem, faz parte do desenvolvimento psicológico de todo mundo. Na escola tem os nerds e os atletas, os do rock e os do sertanejo, essas coisas. Mas na idade adulta esse processo fica mais perigoso porque quando chegamos nesse ponto de identificação com a caixinha na qual estamos metidos, vamos perdendo nossa empatia, nossa capacidade de enxergar, na verdade de entender o outro lado.

E aí aparece aquela frase que todo mundo já disse em algum momento: “Eu não entendo como alguém…”

"Eu não entendo como alguém ainda come carne depois de ver esse documentário.”

“Eu não entendo como alguém pode votar no fulano (ou no partido tal) sabendo de tudo o que ele representa”.

“Eu não entendo como alguém pode ser contra (ou a favor, dependendo de que lado você está) a legalização do aborto.”

“Eu não entendo como alguém consegue furar fila.” 

E por aí vai. Quando eu me vejo me perguntando isso, e é claro que eu faço isso com mais freqüência do que eu gostaria, eu paro e observo. “Eu não entendo como…”. Tá, isso significa que eu estou querendo entender? Ou significa que eu estou esperando que a outra pessoa mude e pense como eu para eu entendê-la?

Se for o primeiro caso, é lindo, porque é uma oportunidade de eu fazer contato com um outro lado do mundo, na verdade uma outra forma de ver o mundo, que eu ainda não conheço (ou não entendo). E aí, hoje em dia, se aquele assunto mexe muito comigo, eu posso ir lá conversar abertamente com a pessoa que eu não estou entendendo ou posso fazer um exercício à distância de tentar me colocar no lugar dela para ver de onde ela está partindo para fazer X ou Y. 

A primeira vez que eu fiz isso foi um divisor de águas para mim. Vou me expor aqui um pouco, tá? Espero que vocês ouçam sem me julgar. Eu tinha um julgamento forte a respeito de pessoas de uma igreja específica, a Igreja Universal. Por que esse julgamento? Porque quando eu era mais nova eu tinha visto o famoso vídeo do Edir Macedo numa lancha tomando espumante e falando sobre como ganhava dinheiro em cima dos fiéis da igreja. Passei anos, anos, gente, julgando e julgando e julgando pessoas que continuavam na Igreja Universal apesar de saberem do vídeo. Meu discurso era “Eu não entendo como alguém pode ficar na Universal depois de assistir esses vídeos”. Eu estava dentro da minha caixinha e eles estavam do lado de fora.

Aí aconteceu o seguinte: um belo dia eu comecei a conviver com uma pessoa que entrou para a família do Fábio, meu marido, e que frequentava a Igreja Universal. Eu tive dificuldade de me abrir para a convivência com ela porque eu estava na minha caixinha (que na real é mais um pedestal, porque a gente se sente melhor que o outro) achando que ela não valia muito a minha atenção. Mas um belo dia me desceu uma luz e eu lembrei do meu não entendo.

Então eu aproveitei um dia em que estávamos só nós duas sentadas na sala e perguntei “Fulana, por que você frequenta a igreja se o Edir Macedo blablabla?”. A minha postura nessa hora era de abertura mesmo porque eu estava só a fim de entender o outro lado. Eu não achava que eu tinha que mostrar o meu lado pra ela, eu não estava preparada para contra-argumentar, nem que tinha que me convencer. Isso é importante: eu não estava lá para concordar com ela, eu estava lá genuinamente aberta a entender como era estar no lugar dela. Ela me respondeu, eu ouvi e eu entendi. Entendi perfeitamente. Não julguei, não categorizei. Eu só entendi. E foi muito, muito legal porque eu estava vendo ela. Vendo mesmo.

Então tá, voltando lá para o começo do episódio, não é que eu não tenha as minhas próprias crenças, não é que eu não acredite na necessidade de mudanças, não é que eu não me identifique com algumas bandeiras. Mas é que eu tento estar bem atenta à minha rigidez e à minha intolerância. É isso, o apego aos rótulos e às causas tende a nos deixa intolerantes e um pouco cegos se a gente não ficar atento (e isso faz com que fiquemos até um pouco manipuláveis, mas isso é um outro assunto).  porque a gente entra nesse lugar de “eu não entendo como alguém pode…”. Na real, a frase que está mesmo sendo dita por trás é “eu não quero entender como alguém pode pensar diferente de mim.” É isso! Querendo estar abertos e incluir, a gente acaba excluindo. Doido, né? É um paradoxo.

A Brené Brown, uma autora que quem me segue no Instagram deve ter percebido que eu adoro, chama isso de desumanização. Quando a gente se distancia dessa qualidade humana tão forte e importante (e linda) que é a empatia, a gente desumaniza o outro. É até interessante observar como, literalmente, nós temos uma tendência a chamar aquela outra pessoa que nós estamos condenando de burra, de porca, de ser do além, criatura do pântano profundo (essa eu aprendi com um colega de trabalho anos atrás), de palhaço. Deu para ver que esses nomes nos ajudam a distanciar aquela pessoa da humanidade dela?

Mas o que a Brené fala, não lembro se é no livro “Mais Fortes do que nunca” ou no “A coragem de ser imperfeito”, é que para desumanizarmos alguém, a gente precisa se desumanizar antes, já que nossa essência natural é amorosa e empática. Forte, né? Recentemente, nas eleições do ano passado, fizemos uma das desumanizações mais fortes que eu vi nos últimos tempos. Não conseguíamos pronunciar o nome do Bolsonaro e começamos a chamá-lo de Coiso (entre outros nomes). Na época eu achei isso super interessante e ficou claro pra mim que tinha muito conteúdo nosso muito forte sendo projetado nele.

Mais uma vez, independente de eu não me identificar com o que ele defende como político, eu tentei me lembrar o tempo todo que ele é um ser humano, que nasceu de dois seres humanos, ou seja, que ele tem uma pai e uma mãe, como eu, que tem lá seus medos e inseguranças além de qualidades e defeitos. Isso foi bom porque eu senti um quentinho e um espaço bom dentro de mim em vez de uma dureza e uma energia estranha que eu estava sentindo antes. Acredito que eu tenha me humanizado um pouco. E com relação a ele, além de mais humanizado, desse jeito ele ficou menos idealizado (porque lembra que a idealização não é só de quem a gente admira, é de quem a gente repudia também, já que idealização é projeção).

Enfim… é isso que eu quero dizer com maturidade e autonomia para lidar com a mistura de abundância de informações e um monte bandeiras que nós estamos defendendo. Eu tenho certeza que nós partimos de um lugar amoroso dentro da gente quando defendemos as minorias, os animais, o meio ambiente. E tenho certeza que nenhum de nós gostaria de usar a intolerância para defender a tolerância. Mas é o que corrermos o risco de fazer se não ficamos atentos.

E mais uma vez, se é isso que alguém quer, tudo bem também! Eu tenho uma tendência a ser conciliadora, por isso minhas ideias são conciliadoras. Mas eu não tenho a mínima ilusão de achar que estou certa nem que todo mundo deveria pensar como eu nem que um dia todos seremos conciliadores também. Tem gente que é mais embativa, que resolve as coisas no embate, e tudo bem também.

Este podcast é um ponto de vista de uma pessoa sobre alguns assuntos. Pega o que eu disse e coloca na sua caixinha de diversidades de pensamento. Se você não concordar com alguma coisa que eu disse, pelo menos você ouviu uma opinião diferente e sua Mente agora está pintada de outras cores e nuances. Eu não estou discursando, sabe? Estou conversando.

E se você quiser conversar sobre isso comigo, eu vou adorar ouvir ideias semelhantes ou diferentes porque eu também estou aprendendo e também estou sempre mudando e metamorfoseando.

Então é isso.

Obrigada por ter ouvido até aqui… mesmo!

E nos vemos dentro de duas semanas, no próximo episódio.

Até lá!