Citando... Nigel Warburton

 
Do livro  Uma Breve História da Filosofia . | Foto: Verena Kacinskis

Do livro Uma Breve História da Filosofia. | Foto: Verena Kacinskis

A sabedoria de Sócrates vinha de sua abertura para continuar fazendo perguntas e estar sempre disposto a debater suas ideias. A vida, ele dizia, só vale a pena se você pensa nas coisas que está fazendo. Uma existência não examinada funciona para o gado mas não para os seres humanos.
— Nigel Warburton

Continuar fazendo perguntas e examinando até mesmo as verdades que nós temos como mais seguras dentro de nós, não porque precisamos mudar de opinião, não porque estejamos certos ou errados, mas para nos livrarmos da rigidez da Mente, que prefere distorcer o fatos, adaptando-os às suas verdades rígidas, do que se entregar aos fatos e relacionar-se com eles de uma forma mais honesta.

Sempre me lembro de um diálogo que eu presenciei muitos e muitos anos atrás entre um casal que havia acabado de ter uma filha e um interlocutor que conversava com eles:

“Nós somos muito abertos. Nossa filha vai poder ser quem ela quiser: namorar menina ou menino, pintar o cabelo de azul, decidir que vai ser artista, o que ela quiser.”. “E se ela quiser ser freira?”. “Nossa, isso seria difícil de aceitar.”

Somos preconceituoso, de uma forma ou de outra, e tudo bem. O preconceito é o comportamento de uma Mente que tem medo do diferente. E esse diferente é distinto para cada um. Para uns é um cabelo azul, para outros é uma vida monástica.

Examinar as nossas verdades, de tempos em tempos, não quer dizer que a gente não possa ter ideias e opiniões muito bem definidas sobre as coisas, porque temos e provavelmente sempre teremos, mas é legal sabermos que a mesma rigidez de ideias que a gente vê e aponta no outro provavelmente também existe, com outra roupagem, dentro de nós.

Um belo dia eu percebi que o outro podia apontar o dedo para mim com o mesmo olhar de desprezo e julgamento que eu apontava para ele. Isso foi o que me moveu, me fez sair do meu pedestal e querer incluir o outro dentro de mim, ao invés de excluí-lo. E essa mudança interna, de abrir o meu círculo de pensamentos não para concordar com o que o outro diz mas para parar de rebater a fala dele, tem feito TODA a diferença na minha vida. O meu mundo, literalmente, mudou.

Mesmo que eu não concorde, mesmo que eu não me identifique, eu reconheço que aquele outro e eu podemos concordar em discordar. Substituí o desprezo e a rejeição por essa nova conciliação. E a partir desse lugar, passei a enxergar a humanidade que existe no outro e, claro, também em mim. Até os meus relacionamentos mais íntimos se modificaram, porque você não passa por uma mudança como essa sem reverberar na vida toda. Esse outro olhar também;em humanizou mais os meus pais, o Fábio minhas irmãs, meus pacientes, meus amigos, o homem que me pede dinheiro na rua, o senhor que me dá bom dia na calçada.

“Uma existência não examinada funciona para o gado mas não para os seres humanso”, dizia Sócrates. E por que não iríamos examinar a nossa existência se isso nos aproxima mais da nossa humanidade? Né?