Integração e conciliação são a tecnologia do futuro

 
O amor é telepático. | Foto: arquivo pessoal.

O amor é telepático. | Foto: arquivo pessoal.

Ontem, mais uma vez, eu atendi duas pessoas diferentes, com posicionamentos políticos opostos, porém com ansiedades semelhantes provocadas pela política do país. Essas experiências me ensinam muito e me relembram, caso eu já tenha esquecido, que é preciso ajustar o foco das lentes que eu uso para lidar, como terapeuta, com o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Caso você também tenha se esquecido, estou aqui para te relembrar: estamos no mesmo barco, gente. Mas não é mesmo barco “Brasil”. É mesmo barco “seres humanos carregados de condicionamentos tentando se lembrar o que vieram fazer aqui”.

Uma das minhas pacientes é contra o Bolsonaro e tem sentido muita ansiedade por ver a quantidade de pessoas que se alinham com ele, que representa “o contrário de tudo o que ela acredita”. A outra se sente alinhada com algumas ideias dele e tem sentido ansiedade por ver a quantidade de pessoas que não se alinham com ele e, portanto, representam o contrário de muitas das coisas que ela acredita.

Uma e outra e mais outra vez o consultório me mostra que o foco do trabalho terapêutico não tem nada a ver com política, nem com religião, nem com qualquer ideologia. No frigir dos ovos, mesmo uma angústia aparentemente ideológica é, na realidade, uma angústia pessoal, porque por trás da ideologia tem um ser humano.

Nos tempos atuais, certamente, a política é o cenário no qual as neuroses pessoais se desenrolam, um terreno fértil para que nossa mente estreita seja desafiada a se ampliar. No fim do dia, o objetivo não é mudar o posicionamento de cada um e sim aprender a lidar com o paradigma oposto sem adoecer.

Mente estreita, neste contexto, não é igual a mente fechada, preconceituosa etc. Aqui eu estou falando de mente que acha que sabe mais, que entende mais, que sacou mais. E, nesse sentido, o eleitor do Bolsonaro e o eleitor do PT podem ter a mesma estreiteza mental.

Por isso, este é um texto psicológico, não é um texto político. Quanto mais pessoas eu atendo, ou seja, quanto mais mundos internos eu conheço, mais certeza eu tenho de que existe uma solução para os conflitos atuais que inclui o conservador e o progressista, o religioso e o laico, e assim por diante. A solução é mudar o foco: o foco certo, eu já venho dizendo há um tempo, é conciliar.

O dia em que as minhas duas pacientes se sentirem representadas, quando aceitarmos finalmente que sempre haverá conservadores e vanguardistas (e todos os outros opostos) no mundo, aí teremos alcançado um nível de maturidade a partir do qual finalmente poderemos construir um novo jeito de conviver.

Uma pessoa como o Bolsonaro não é tóxica para o Brasil porque é religiosa ou conservadora ou militar. Ele é tóxico porque é míope, só enxerga um palmo à frente do próprio nariz, e pretende impor sua visão de mundo a todos os outros.

Como ser humano, estou com a atenção redobrada às reações que ele provoca em mim e nas pessoas ao meu redor. O Bolsonaro engatilha em muitos uma repulsa e um desprezo que acendem meu alarme interno. Repulsa e desprezo, por definição, colocam a pessoa, a ideia ou a instituição desprezada abaixo de quem as despreza. Se eu me acho superior, mais lúcida ou mais evoluída do que ele, estou usando a mesma estreiteza mental que ele. Se eu não estou falando com o meu primo que votou no Bolsonaro, quem precisa de autorreflexão sou eu, não porque precise rever o meu posicionamento político mas porque preciso olhar para a minha inabilidade em lidar com o diferente.

Mas peraí que eu quero desenvolver melhor essa ideia.

Quando você conhece mais intimamente a quantidade e diversidade de pessoas que um psicólogo tem o privilégio de conhecer, por exemplo, o seu mundo se abre. No consultório eu aprendi que (muito provavelmente) sempre existirão pessoas que se sentirão desconfortáveis com a homossexualidade. Com o aborto. Com casamento aberto. A tendência a se sentir mais seguro dentro de espaços mais tradicionais é um traço de personalidade e está no mapa astral, na criação, nas oportunidades apresentadas ao longo da vida de cada um. Diz algo sobre o lugar que aquela pessoa ocupa no todo.

O conservador tem seu papel no mundo, ele ajuda a manter sob controle o ritmo da roda das mudanças. Por isso, esperar que um dia todos os seres humanos sejam pró-aborto é irreal.

Da mesma forma, sempre existirão pessoas que pintam o que ninguém ainda pintou, que compõem o que ninguém ainda compôs, pensam o que ninguém ainda pensou, buscam renovar o status quo. A busca pelo novo também é uma característica de personalidade e o vanguardista também tem seu papel no mundo, ele provoca as renovações que o conservador tenta impedir que aconteçam. Por isso, esperar que um dia todos os seres humanos sejam contra o aborto é irreal.

O que, sim, devemos esperar é que todas as escolhas sejam respeitadas. Você não precisa concordar com as minhas escolhas, mas precisa respeitá-las. E eu preciso respeitar as suas.

A palavra de ordem é incluir, gente. Incluir em vez de excluir. Estou convencida de que o ativismo saudável é aquele que busca a inclusão de sua causa na diversidade e não aquele que pretende excluir os que não se alinham com a sua causa.

E é por isso que eu digo que este é um texto psicológico, e não político. Porque, na tentativa de fazer o que achamos certo e justo, nosso discurso está ficando intolerante. Sabem o que acontece depois disso, né? O pêndulo vai para o outro lado, e corremos o risco de continuar nesse eterno vai-e-vem de um extremo ao outro. 

Não vivemos uma crise econômica, política, ambiental. Vivemos uma crise humana, a mesma de sempre: eu só consigo te enxergar direito se você for igual a mim. Como somos diferentes, não há acordo.

Mas nós já acumulamos quantidade suficiente de maturidade psíquica coletiva para começar a mudar o foco, para nos livrarmos dos antigos condicionamentos. Eu sei disso porque olho em volta e vejo pequenos sinais. A parte importante vem agora, quando cada um, em seu mundinho, se responsabilizar pela sua parte. A gente precisa de um tipo de posicionamento humano inovador. Algumas doutrinas orientais falam disso há tempos mas ainda não aprendemos a incorporar esse estilo de vida à nossa rotina.

Precisamos de menos jogo e mais autoconhecimento. Menos dedos apontados para fora e mais olhar para dentro. Quem já está nesse caminho sabe o que acontece quando você arruma a sua casa interna. De dentro dessa organização interior surge uma calma e uma presença que te ajudam a olhar em volta com outros olhos. Não é o seu posicionamento político que muda mas sim como você se posiciona.

É muito diferente ser feminista com o seu feminino ferido e ser feminista com o seu feminino curado. A busca, o discurso, mudam quando você se organiza. A partir de um lugar interno organizado, você se posiciona para incluir, para construir, porque o seu mundo interno já está em ordem.

Fazer algum tipo de terapia, organizar o mundo interno, é um trabalho pessoal de repercussões coletivas. Para mim, é tão importante quanto reciclar meu lixo e pagar os meus impostos. É minha obrigação como ser humano neste planeta, porque qualquer coisa que a gente faz no mundo de fora é um reflexo da situação na qual se encontra o nosso mundo de dentro.

Estamos há tempo demais com foco para fora. Toda a nossa tecnologia foi desenvolvida com foco no mundo externo, da agricultura à medicina. Até em Marte nós já conseguimos aterrisar. Acho que foi Einstein que disse que não faz sentido resolver um problema com o mesmo estado mental que o criou. Pois bem, estamos em embate, no “eu X eles”, há muito tempo. Não está resolvendo. Não vai resolver. Integração e conciliação são a tecnologia do futuro.