Manifesto pelo Autoconhecimento

O mundo precisa de adultos autônomos e trabalhados, capazes de assumir responsabilidade pelo seu próprio equilíbrio emocional, físico e mental.


Faz 2400 anos que Sócrates apareceu com seu método simples, que revelava os sistemas de crenças escondidos no discurso de seus seguidores. Faz 4700 anos que o Taoísmo nos ensina sobre dualidade e a dança dos opostos. Freud já falava sobre o inconsciente e as feridas infantis há 120 anos. Jung trouxe o conceito de inconsciente coletivo há aprox. 100 anos.

A ideia de que possuímos uma realidade interna tão vasta e complexa quanto o mundo externo não é nada nova. No entanto, em pleno século XXI, nós continuamos insistindo em direcionar nosso foco para as crises e conflitos externos, ignorando que a origem de tudo é interna.

Acabamos de entrar em 2019 em meio a uma revolução coletiva. Estamos tentando abrir novos caminhos, estamos mudando antigos padrões, estamos unindo vozes para quebrar velhos paradigmas. O novo está disputando seu lugar ao sol com o velho. Está tudo muito forte, muito intenso, muito incrível. No entanto, quando eu olho em volta, o que vejo são pessoas assustadas, intolerantes, se separando e se isolando em extremos, identificadas com caixinhas aparentemente excludentes e irreconciliáveis. Isso me faz pensar que o importante, essencial e fundamental ainda está longe de ser o nosso foco:

Ainda.

Falta.

O.

Autoconhecimento.

Não somos estimulados a desenvolver nossa inteligência emocional na infância e não cultivamos práticas regulares de autoconhecimento na idade adulta. Talvez falte a gente entender que nossa atuação social, seja ela como pais, terapeutas, empresários, publicitários ou políticos, não está descolada de nossa saúde psicológica e emocional. O que está dentro de nós é projetado no que fazemos no mundo de fora, como pessoas e como sociedade.

O grupo é formado por indivíduos, e assim como um papel de bala jogado por uma única pessoa na calçada polui a cidade inteira, os preconceitos e julgamentos de cada um desestabilizam toda a sociedade. Por isso, olhar para dentro e organizar nosso mundo interno é nossa responsabilidade pessoal e social. Enquanto não entendermos que autoconhecimento é, também, um trabalho pelo coletivo, continuaremos desperdiçando energia e poluindo o planeta com plásticos, CO2, intolerância e preconceitos.

No final do dia, não adianta estarmos alinhados com um grupo ideológico se não estamos cuidando das nossas dores pessoais.


UM - AS IDEOLOGIAS

Ilustração    Muhammed Salah

Ilustração Muhammed Salah

Em algum momento do processo de autoconhecimento, todos acabamos nos deparando com as forças opostas em processo de integração dentro de nós. A luz e a sombra, o feminino e o masculino, os potenciais de construção e destruição. O equilíbrio psíquico consiste em saber caminhar entre os extremos, sabendo a hora de expandir e a hora de contrair, a hora de doar e a hora de receber, e assim por diante.

Se estivéssemos observando com carinho e atenção o nosso universo interno, já teríamos entendido que o mundo não precisa de ideologias. Nem de feminismo, nem de machismo. Nem de esquerda, nem de direita. Nem de matriarcado, nem de patriarcado. O mundo precisa de adultos autônomos e trabalhados, capazes de navegar pelas diferenças, assumindo responsabilidade pelo seu próprio equilíbrio emocional, físico e mental.

Adultos que entendam que precisamos de um pouco das qualidades progressistas e outro pouco das qualidades conservadoras, para sabermos quando é hora de caminhar e quando é hora de parar. Adultos que consigam entender a importância do equilíbrio entre o matriarcado e o patriarcado, para sabermos quando é hora de agregar e quando é hora de separar. Um mundo onde há espaço para um pouco de tudo. Não um OU o outro. Não um NO LUGAR do outro. Um E o outro. O fato de continuarmos nos classificando por ideologias e rótulos mostra que ainda não atingimos nosso potencial de maturidade como indivíduos e como sociedade.


DOIS - O MEIO AMBIENTE

Ilustração    Megan Sebesta

Ilustração Megan Sebesta

Um dos resultados naturais do trabalho terapêutico é uma percepção maior do corpo, da saúde, do que nos faz bem e nos faz mal. Conforme organizamos a bagunça emocional dentro de nós, somos mais amorosos e cuidadosos com nossas escolhas e nosso bem estar. A gente não nasce sabendo se cuidar e cuidar do planeta. Isso é algo que se aprende não só por meio de leis e regras sociais, mas também de dentro para fora, porque o autocuidado é reflexo do nosso grau de amor próprio e respeito por nós mesmos.

Paralelamente, se estivéssemos envolvidos em nossos próprios processos de autoconhecimento e amor próprio, nosso planeta (que é nossa casa, pelamor!), não estaria chegando a um ponto sem volta de depredação e descuido. A desconexão profunda entre nós e o planeta, a ponto de não entendermos a gravidade de deixar lixo para trás na sala de cinema, descartar esgoto no leito de rios, encher plantações de agrotóxicos, usar produtos cancerígenos em alimentos industrializados, é paralela à desconexão que vivemos com o nosso corpo e nosso autocuidado.

Como podemos esperar que um ser humano cuide do ambiente que o rodeia se ele mesmo não consegue se cuidar e se respeitar? Tudo acontece primeiro dentro da gente para depois se expressar do lado de fora. Por isso, o mundo precisa de algo mais importante do que uma Cúpula do Clima. O mundo precisa que seus líderes e cidadãos sejam adultos autônomos e trabalhados, capazes de tomar conta de si mesmos, assumindo responsabilidade por sua própria saúde emocional, física e mental e por sua atuação no coletivo.


TRÊS - A INTOLERÂNCIA

Ilustração    Jerome Masi

Ilustração Jerome Masi

Uma das fases mais curadoras e libertadoras de qualquer processo profundo de autoconhecimento é quando nos desidentificamos das máscaras adotadas pela nossa criança interior, insegura e carente de atenção, para ser aceita e amada.

Essas máscaras são como identidades falsas, personagens fictícios criados e aperfeiçoados ao longo de anos, cuja principal função é mostrar o lado considerado socialmente aceitável e esconder o lado que se supõe não ser tão legal. Cada família e grupo valoriza algum tipo diferente de máscaras, e assim aprendemos a nos adaptar para sermos validados.

Ao longo do tempo, conforme nos identificamos mais e mais com as máscaras individuais e coletivas, alimentamos a intolerância ao diferente e o preconceito com qualquer coisa que não se encaixe nos padrões culturais, religiosos, sociais etc nos quais fomos treinados. A identificação com as máscaras, com as tribos, com os rótulos, é um mecanismo psicológico usado durante os nossos anos de formação para nos sentirmos seguros e validados. A desidentificação, por sua vez, é sinal de crescimento e maturidade emocional.

Se estivéssemos fazendo a nossa parte e nos dedicando ao nosso próprio caminho de autoconhecimento, estaríamos tendo diálogos mais construtivos e tolerantes com quem pensa e age diferente de nós, pois a dificuldade em aceitar pensamentos, escolhas e formas de vida diferentes das nossas diz respeito ao medo de olhar para esses mesmos aspectos dentro da gente. Assim como o Yin possui um ponto Yang dentro de si, e vice-versa, todo heterossexual possui dentro de si o potencial para a homossexualidade, todo ateu possui o potencial para a devoção, toda honestidade possui o potencial para a corrupção.

Por isso, mais do que leis e cartilhas, o mundo precisa de adultos autônomos e trabalhados, capazes de se enxergar como indivíduos completos, assumindo responsabilidade por seu próprio equilíbrio emocional, físico, mental e espiritual.


QUATRO - O CORPO E A BELEZA

Ilustração    Valero Doval

Ilustração Valero Doval

Na escola, nos ensinam a enxergar o corpo com o distanciamento típico da ciência convencional. Este é o sistema digestório. Estas são as partes de uma célula. Aqui está a anatomia do seu coração. Esta é uma foto do pulmão de um fumante.

Infelizmente, essa metodologia de ensino não trabalha para vincular a teoria com a realidade, o corpo ilustrado na apostila com o corpo real de quem está lendo a apostila. Tem um coração batendo bem aí, dentro do seu peito. A qualidade da sua última refeição está afetando o seu corpo bem agora, neste exato momento. O seu nível atual de estresse está agindo agora, na sua habilidade de manter atenção a este texto um tanto quanto longo.

Não existe uma separação entre corpo, mente, emoções, energias, psique porque cada ser humano é um sistema complexo e autorregulado, cuja principal função é manter-se atualizado e equilibrado. Em outras palavras, a minha psique é um aspecto do meu corpo, que é um aspecto da minha mente, que é um aspecto das energias que circulam por mim, e assim por diante. É tudo uma coisa só, e a classificação em partes é puramente didática.

Uma das consequências mais bacanas de qualquer trabalho de autoconhecimento é o desenvolvimento de um intimidade forte e poderosa com o corpo, suas vontades e seus ritmos. Você aprende que tipo de rotina te faz bem e sente vontade de respeitá-la. Você aprende que o seu corpo é bem mais forte e resiliente do que você imaginava, e passa a celebrá-lo. Você entende quais hábitos te fazem bem, e se alinha a eles naturalmente. Você entende que a beleza real do corpo não tem nada a ver com o formato dos braços ou a ausência de celulite nas pernas, e sim com a habilidade e a disponibilidade desse sistema incrível em se manter no máximo de equilíbrio que ele consegue, com os recursos que ele tem.

Portanto, é hora de sermos mais amorosos com nosso corpo. O mundo não precisa de mais um tratamento estético anti-envelhecimento nem de mais uma dieta milagrosa para alcançar o “corpo do verão”. O mundo precisa de pessoas que valorizem sua diversidade física, que entendam que os corpos são muito mais do que sua forma física. Precisamos de adultos autônomos e trabalhados, capazes de respeitar e honrar as habilidades e todo o potencial de crescimento, mudança, tolerância e colaboração que podem ser alcançados através de seus corpos.


CONCLUSÃO

O que os meus anos de trabalho me ensinaram, como terapeuta e pessoa em busca de me entender melhor, é que existe um mundo tão profundo, complexo e interessante dentro de nós, que é um enorme desperdício não tentarmos algum tipo de contato com ele. Nossa psique é como uma gaveta cheia de objetos despejados aleatoriamente ao longo dos anos. Quando nos comprometemos a abri-la e organizar a bagunça, encontramos guardados não só os nossos “lixos” mas também todo o nosso potencial de criação e transformação.

Esse “olhar para dentro” pode ser feito de várias formas: muitos tipos diferentes de terapias, cursos, palestras, livros, meditação etc. O mais legal, na minha opinião, é misturarmos um pouco de tudo.

O que eu tenho repetido nos últimos anos é que precisamos colocar a inteligência emocional no mesmo patamar de importância dos outros tipos de inteligência: lógica, espacial, matemática etc. Mas o mais importante é entendermos que autoconhecimento não tem a ver somente com olhar para feridas de infância e chorar na sessão de terapia.

Tem a ver com conhecer e desenvolver os nossos potenciais e superpoderes.

Tem a ver com aprender a pensar por nós mesmos, para não cairmos no blábláblá dos que querem nos vender produtos, ideias, conspirações, qualquer manipulação embrulhada em uma hashtag de efeito.

Tem a ver, inclusive, com terminar de ler este texto e saber, por meio da sua voz interior, se ele serve ou não para você.

Eu poderia trocar a palavra autoconhecimento por amor próprio sem mudar o sentido deste Manifesto.

Um dia espero que a gente entenda, mas entenda de verdade, que o que dá sentido e valor para as nossas vidas não é a carreira, a família, as viagens, os livros. Ser psicóloga é legal. Estar casada é bem legal. Conhecer cidades e sotaques diferentes é uma delícia. Mas na verdade, quando nos despimos dos rótulos (mulher, escritora, roqueira) e entramos em contato com o que nos motiva a conquistar mais e mais e mais, o que encontramos dentro de mim, de você, do ídolo do futebol ou do presidente de um país é sempre a mesma coisa: somos seres extremamente sensíveis, tentando descobrir o que devemos fazer para receber amor e aprovação.

A resposta é bem simples: a gente não precisa construir nem comprar nem mudar nada. Precisamos organizar a confusão interna que nos impede de enxergar que somos incríveis do jeitinho que a gente é. Isso é o que a gente alcança com o autoconhecimento.

Portanto, meus queridos, o mundo precisa de adultos autônomos e trabalhados que se amem e se respeitem tanto, mas tanto, que esse amor e respeito internos não tenham outro caminho a seguir a não ser respeitar e honrar todos os outros seres que convivem conosco. Tudo começa dentro antes de chegar do lado de fora.


ARTIGOSVerena Kacinskis2 Comments