Sobre espaço, tempo e pressa

 
Estúdio de yoga da Nina, onde eu faço aula duas vezes por semana e abro muitos espaços dentro de mim. | Foto: Arquivo Pessoal

Estúdio de yoga da Nina, onde eu faço aula duas vezes por semana e abro muitos espaços dentro de mim. | Foto: Arquivo Pessoal

“Observe o espaço que está sendo criado na postura e depois deixe o seu corpo ocupar esse espaço.”

A primeira vez que eu ouvi a Nina Sá dizer essa frase na aula de yoga, minha mente teve aqueles tremeliques típicos de um bom insight, que nada mais é do que um vento que entra pela janela mas, em vez de bagunçar, organiza os cômodos da nossa casa interna.

“Peraí... não é para eu forçar meu corpo a ir além do que ele consegue, não é para eu me apertar em uma postura desconfortável? É para encaixar o corpo em um espaço no qual ele, de fato, possa caber? É assim que eu vou criar e ocupar mais espaço? E essa era uma opção na minha vida desde o começo?”

Se eu forço demais o meu corpo a entrar em uma postura na aula, em vez de alongar, eu travo. Meu músculo resiste, me diz “vou parar por aqui para me proteger da dor”. Mas a gente aprendeu que o certo é forçar mesmo assim, né? Essa, aliás, era a história da minha vida. Força e vai com dor. Por isso, ir até onde o meu corpo consegue e depois tentar ocupar mais espaço, alongar mais um pouquinho, girar um pouco mais, tem sido quase uma rebeldia, uma contravenção.


Agora presta atenção nessa ideia… olha como ela encaixa em tantos e tantos contextos da nossa vida.

Você não precisa forçar a decisão de sair ou ficar em um relacionamento / emprego / compromisso agora. Observe e perceba o espaço da resolução se formar aos poucos. Quando o espaço estiver formado, você vai saber o que fazer. E então, ocupe-o.

Não adianta querer que o resultado de um tratamento de saúde, de um novo hábito, de uma mudança na rotina apareça imediatamente. Deixe esse movimento ir se estabelecendo, confie no espaço que vai se abrir, e depois... ocupe-o!

Eu não precisava ter me cobrado tanto quando ainda não conseguia soltar o podcast, no ano passado. Olhando bem, de fato tive que esperar que se criasse um espaço para ele na minha cabeça e na minha rotina, e só depois consegui preenchê-lo.

Mas essa espera, para as nossas mentes super ansiosas, sedentas por resultados imediatos, não é natural. E eu percebo que além da pressa da mente ansiosa, outra coisa que nos angustia a respeito da espera é uma falta de confiança em nossa própria perseverança.

Nos desesperamos quando o resultado demora para aparecer porque existe uma voz dentro da gente que teme não aguentar esperar o espaço se formar. Aí, a gente força. E aí, dói. E aí... a gente diz que ficou desconfortável, e desiste. “Meditar não é para mim”. “É, acho que não nasci para falar inglês”. “Não vou tentar mudar de emprego, eu sei que não vou conseguir mesmo…”

Mas existe uma sabedoria na espera, eu tenho aprendido, que diz respeito à calma da perseverança. E a perseverança diz o seguinte: “eu sei que eu quero mais espaço mas tudo bem, vou me mexer um pouquinho todos os dias até ele ficar do tamanho que eu preciso. Não tenho por que me angustiar, não tenho por que ter pressa. Não preciso forçar nada e não preciso me desesperar.”


Quanto ao significado desse espaço, podemos estar falando de muitas coisas.

Para mim, ele tem muito a ver com o tempo. A yoga está trazendo mais tempo para mim. Ao longo destes meses, desde que comecei as aulas, tenho encontrado minutos sobrando entre as várias tarefas do meu dia. Dez minutinhos para descer e tomar um café entre um atendimento e outro. Vinte minutos para terminar de ler o capítulo de um livro antes do próximo compromisso. Eu não sei dizer se esses minutos sempre estiveram aí, mas algo me diz que sim. E tenho quase certeza de que eu os preenchia com alguma tarefa, algum email para responder, algum post para terminar de escrever.

Todas as vezes que a Nina me relembra que eu posso ir com calma sem forçar o meu corpo na aula, eu ganho mais uns segundinhos na minha semana e mais espaço psíquico na minha casa interna. Acho que, nesses 2 meses, já devo ter aberto, pelo menos, mais um novo cômodo aqui dentro de mim. Estou em reforma, por assim dizer.

E quanto a você, te convido a pegar o seu Caderno de Observações a-go-ra, respirar fundo algumas vezes e perguntar para a sua voz interna o que seria esse espaço para você. Seja o que for que surgir no papel, olhe com carinho e veja onde você está se (es)forçando demais, e se dê espaço, sabe? Mesmo. Forçar um movimento dói e incomoda, mas você sempre tem a alternativa de esperar mais um pouquinho até que o movimento, a decisão, o aprendizado amadureçam dentro de você.