TRABALHO E FORMAÇÃO

Formação, experiência e construção da prática

Nesta época de imediatismos, em que vendedores de milagres prometem encher de pacientes, em pouco tempo, os consultórios de colegas recém-formados e dos que mudaram de carreira e buscam se consolidar como terapeutas ou psicanalistas, decidi criar esta aba para reforçar que a prática clínica amadurece com o acúmulo de experiência, e que a formação de uma agenda duradoura e sustentável exige consistência, paciência e, algumas vezes, também planos B e C.

 
 
 

Início da formação

 

Caracas, a capital da Venezuela, é rodeada por uma cadeia de montanhas que a separam do mar e a mantêm sempre quente, sempre úmida e sempre linda. Nos anos 1990, morei com a minha família nesse vale tropical durante quase cinco anos, no auge da minha adolescência, logo antes da era Chavista se instalar no país. Cursei o Ensino Médio em escolas venezuelanas e, no segundo semestre de 1996, iniciei minha graduação em Psicologia na Universidad Central de Venezuela (UCV) — a universidade pública federal de Caracas.

O campus da universidade era amplo, verde, aberto, modernista. Eu amava fazer parte do vai e vêm dos alunos que desciam de metrô na estação Ciudad Universitaria e se espalhavam na direção de suas faculdades. Para quem, desde os dez anos de idade, contava os dias para começar a “viver a vida dos adultos”, aquele início de experiência acadêmica era a materialização de um sonho. As salas de aula do Instituto de Psicologia tinham portas-balcão que davam para um jardim interno onde alunos e professores transitavam entre uma aula e outra. A faculdade oferecia várias opções de trabalhos extracurriculares e de pesquisa e eu me interessei por vários deles.

A Psicologia era parte da Faculdade de Humanidades e Educação e se eu tivesse terminado o curso na UCV, teria sido influenciada por uma psicologia experimental e pragmática, pautada nos estudos norte-americanos de viés cognitivo-comportamental. Mas no início de 1997, quando eu estava no segundo semestre de estudos, meus pais precisaram voltar para o Brasil, e tudo mudou.

Eu estava acostumada com essas idas e vindas familiares, havia passado a vida inteira fazendo amigos e me despedindo deles a cada dois ou três anos, quando nos mudávamos de cidade. Mas agora eu já não era criança e estar no ensino superior não era como estar na escola. Inicialmente, decidi me emancipar e ficar em Caracas por conta própria. Antes de começar o quarto semestre de graduação, porém, percebi que não daria para me sustentar sozinha e tomei a dificílima decisão de deixar amigos, um amor e todo um plano de vida para trás e voltar para o Brasil.

Fui morar com a minha família em Brasília e me matriculei em um cursinho para prestar o vestibular brasileiro. Foi dolorido. Eu tinha a sensação de estar voltando algumas casinhas no tabuleiro. Não passei na UnB, minha opção principal, mas entrei em uma universidade particular, o Centro Universitário de Brasília (UniCeub), e me matriculei sem pensar duas vezes.

No UniCeub, conheci uma outra psicologia. O curso estava inserido na Faculdade de Ciências da Saúde, e não na de Humanidades. O currículo era bastante cientificista e incluía quatro semestres de Fisiologia Humana — teórica e prática — com aulas em laboratório, experimentos em animais, dissecação e tudo o que eu provavelmente não teria estudado em um curso de Humanas. Saí de lá com um conhecimento amplo e muito bem consolidado da fisiologia humana e de sua relação com a psique. Isso me ajudaria a navegar os sintomas físicos de meus pacientes e seria muito valioso, quase dez anos depois, em uma outra formação que eu não tinha ideia de que viria a fazer. (Daqui a pouco eu chego nessa parte.)

Ainda assim, o UniCeub oferecia uma experiência universitária bem diferente daquela que eu tinha imaginado na UCV, com menos oportunidades de atividades extracurriculares e nenhuma pesquisa, e eu queria garantir que minha passagem pela graduação fosse além do “chegar, assistir às aulas e voltar para casa”. Então, comecei a me envolver com a faculdade do jeito que deu.

 

Fui monitora no Laboratório de Fisiologia por vários semestres. Eu ía para as aulas regulares de manhã e de noite, para compensar o tempo perdido e tentar me formar junto com os meus amigos de Caracas, fazia estágio remunerado em um órgão federal na parte da tarde, e monitorava o Laboratório no meio disso tudo, o que também me garantia uma bolsa de estudos de 50%.

Com o passar dos semestres, fui me identificando e me encantando com a Psicanálise e a Psicologia Analítica. Lia livros sobre o trabalho de Freud e Jung como se fossem romances. Então, me juntei com alunos de outros semestres e montei um grupo de estudos de Filosofia, Psicanálise e Jung que acontecia aos domingos de noite. Brincávamos que estudar nesse horário era só para os fortes. Eu não sabia, mas meu caminho clínico já estava começando a se delinear.

Mas o ponto alto foi o Psicanto.

A professora Magda Verçosa, uma bióloga que coordenava os Laboratórios de Fisiologia, tinha um programa acadêmico chamado Educação para a Saúde no qual os alunos de Fisio III desenvolviam um projeto de educação em saúde com aplicação social. Nem me lembro qual foi o tema do trabalho que eu desenvolvi na turma da noite, mas um grupo de seis amigas minhas da manhã — Camila, Silvana, Patrícia, Daniela, Daniele e Marcelle — reescreveu letras de músicas populares brasileiras, de Paralamas a Chiclete com Banana, gravou um CD em um estúdio e montou um musical chamado Psicanto que abordava as mudanças hormonais e emocionais da puberdade de um jeito muito divertido.

O resultado ficou tão genial, que elas começaram a receber convites para se apresentar em escolas e me chamaram para ajudar na produção, na parte técnica e ainda me deram uma personagem que fazia uma ponta nas apresentações. Passamos alguns semestres levando o Psicanto para escolas públicas do DF e foi uma experiência inesquecível. Posteriormente, esse projeto foi inscrito pelo próprio UniCeub na 1a Mostra de Práticas em Psicologia, que aconteceu em São Paulo em 2003, quando já havíamos nos formado, e fomos expô-lo em um painel que acabou virando nossa primeira publicação científica.

Ao longo do curso todo (e hoje me pergunto como consegui encaixar tanta coisa em tão poucos anos) fiz estágios não-remunerados em um centro de apoio a famílias e crianças autistas em Sobradinho (psicologia escolar), na Rede Feminina de Combate ao Câncer de Brasília, que na época atendia no quinto andar do Hospital de Base  (psicologia hospitalar), e fiz atendimentos com vítimas de violência doméstica e com os agressores, também em Sobradinho (psicologia social).

Mas eu nunca tive dúvidas de que eu iria para a Psicologia Clínica. Por falta de vagas na Psicanálise, fiz os dois semestres de estágio clínico supervisionado na área de Análise Transacional, o que foi muito legal, e sobrevivi, como todos os outros alunos, ao famigerado consultório de espelho unidirecional e ao desconforto de estar sendo observada e analisada de perto, por colegas e professores, enquanto eu fazia algo pela primeira vez.

Ao final do curso, escrevi meu TCC inspirada em parte pelo momento de vida do meu pai e em parte pelo professor mais incrível que eu tive no UniCeub, o Moacir Rodrigues, de Psicologia Analítica. O trabalho se chamou Metanoia: um olhar junguiano sobre a crise da meia-idade.

Em breve:

 

Primeiros anos de trabalho e atendimento
Os anos de BodyTalk
Os anos pós-pandemia
2026

 

Última atualização desta página: abril/2026
Foto: Tainá Frota