A INTEGRAÇÃO DO FEMININO NO CUIDADO DA SAÚDE

Existe esse outro nível de integração, de inclusão do feminino, que beneficia absolutamente todos nós, e diz respeito ao aspecto holístico e sistêmico da saúde e, por consequência, da medicina.

Ilustração  Cecilia Castelli  encontrada em  The Inspiration Grid .

Ilustração Cecilia Castelli encontrada em The Inspiration Grid.


Fazer faculdade de Psicologia foi ótimo. Durante 5 anos virei esponja e absorvi tudo o que as disciplinas me ofereceram, e até mais. Fui monitora, participei de grupos de estudos, me envolvi com alunos de Humanas de outras universidades, estagiei em alguns lugares diferentes e escrevi a minha monografia com a mesma dedicação e entusiasmo de quem escreve o seu primeiro livro.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que a Academia me abriu horizontes, ela me enrijeceu. Passei aqueles anos sendo moldada para me encaixar em uma doutrina científica que deixa em segundo plano o feeling, o sensorial, o feminino. Me lembro de ler sobre os esforços de Freud e sua trupe em validar a Psicanálise como ciência, já que eles traziam conceitos como “inconsciente” e “complexos”, coisas que não são observáveis a olho nu e nem sob um microscópio, portanto não muito bem aceitas pela comunidade científica da época. Me lembro também das besteiras competitivas entre linhas de pensamento dentro da própria Faculdade, algumas tentando diminuir a validade de outras com base no que seria ou não considerado científico dentro da disciplina.

Na época eu não tinha ideia do significado daquilo tudo, mas me lembro muito bem de entender que para ser respeitada pelo meu trabalho e para honrar a posição científica conquistada arduamente pelos que vieram antes de mim (estou falando de Freud, Jung, Skinner) eu teria que renegar, ou em termos sistêmicos, excluir o que pudesse ser interpretado como “místico”. Dentro dessa categoria, se vocês querem saber, entravam desde o Tarô até a Constelação Familiar.

Sete anos depois de me graduar bacharel em Psicologia, entrei no salão de festas de uma casa no Lago Sul, em Brasília, para a minha primeira aula de BodyTalk. O curso duraria seis dias, mas eu comecei a passar mal já no primeiro. Nesse primeiro dia, dedicado a desprogramar a visão estreita de saúde que nos é ensinada na Academia, todos os meus paradigmas foram desafiados. A professora americana falava sobre uma tal sabedoria inata do corpo, e meu estômago embrulhava. Ela trazia conceitos da medicina chinesa, e minha cabeça estourava de dor.

Saí dessa primeira aula com vertigem, dor de cabeça, vontade de vomitar. Como ela ousava me tirar da zona de segurança na qual eu havia sido doutrinada na faculdade e que eu vinha cultivando há sete anos com tanto afinco, um lugar em que eu não teria que lidar com nada que meus olhos não conseguissem observar?

Ao mesmo tempo, dentro de mim borbulhava a sensação de que finalmente alguém estava tocando nesse assunto, falando sobre uma inteligência guiando a cura do meu corpo, consciências que vão além dos tecidos anatômicos de cada um dos meus órgãos, mudanças e curas sem a necessidade de remédios caros ou intervenções invasivas. Ao final da aula corri para a casa da minha irmã mais nova, que morava por perto, e desabei a chorar, sentindo angústia e alívio ao mesmo tempo.

Fui dormir naquela noite jurando que não voltaria para a aula no dia seguinte. Quase dez anos depois, vocês já sabem o que de fato aconteceu, né?


Assim como um peixe provavelmente não percebe a presença da água na qual está inserido, eu demorei mais de 10 anos para perceber que a ciência à qual eu havia sido apresentada na Academia era polarizada e que a minha atuação como profissional de saúde era limitante, tanto para mim quanto para os meus pacientes. Mas depois que eu abri os olhos e enxerguei o que estava faltando, não teve mais como des-enxergar.

Na faculdade de Ciências da Saúde nós somos treinados a ver o ser humano como uma maquininha bem linear e concreta. Se algo dá errado, você substitui a peça ou faz reparos no sistema. Cirurgia e remédio são as soluções possíveis. Hoje em dia, mudança de hábitos e de dieta estão entrando no pacote, mas o resto continua baseado na ideia de que o corpo só anda em uma direção, a do envelhecimento e deterioração, e que quando ele começa a funcionar mal, não tem volta, “você vai ter que tomar este remedinho para o resto da vida”.

Vocês se lembram daquele artigo sobre as qualidades masculinas e femininas? Então, partindo daquela ideia, esta medicina que nós conhecemos e da qual dependemos é super yang, masculina, concreta. A tecnologia desenvolvida na área da saúde nos últimos, sei lá, 50 a 60 anos, é uma mostra da habilidade incrível do pensamento masculino em mensurar, categorizar e criar soluções para problemas pontuais como um tumor, um desequilíbrio bioquímico, um descompasso no coração. E a energia masculina é assim mesmo, precisa em sua objetividade.

Mas peraí. Apesar de toda essa evolução tecnológica, nós estamos doentes. Bem doentes. Não só estamos mais diabéticos, mais hipertensos, mais deprimidos e mais ansiosos. Estamos desempoderados, desconectados do corpo, alheios ao potencial de cura, de recuperação, de resolução que existe em cada um de nós.

Devido à sua própria natureza cartesiana, remediadora, linear, a medicina atual não sabe lidar com esse outro aspecto do corpo, aquele que é mais holístico, mais abrangente, mais sistêmico. E eu nem espero isso dela. Cada lado tem seu lugar e seu valor, e a visão sistêmica e preventiva não é o paradigma natural do pensamento masculino. Quem desempenha essa função é o feminino.


Para mim, integrar e devolver ao feminino o espaço que lhe cabe não diz respeito somente ao direito de as mulheres ocuparem os mesmos espaços que os homens na sociedade (que tem um formato, convenhamos, bem masculino). O movimento, a meu ver, é bem mais profundo, e acontece no nível da nossa consciência coletiva, no respeito e na honra ao feminino que existe em cada um de nós, homens ou mulheres, e no respeito e honra à energia feminina que já existe na sociedade mas ainda é ignorada.

Abrir espaço para que mais mulheres ocupem cargos na política, na diretoria de empresas, que recebam os mesmos salários que seus colegas homens é super importante. Mas valorizar atividades de natureza tipicamente feminina, como a dos professores e cuidadores, e entender que essas atividades são tão valiosas quanto as dos engenheiros e advogados também é essencial.

A integração do feminino no cuidado da saúde, seguindo esta mesma linha, vai além de termos mais mulheres reconhecidas no meio médico e ocupando cargos importantes nos laboratórios farmacêuticos, nas secretarias de saúde, nas diretorias dos hospitais, que são constructos masculinos. Vai até mais longe do que a valorização das profissões dos enfermeiros e cuidadores.

O respeito à energia feminina que já existe na sociedade mas ainda é ignorada. | Ilustração  Cecilia Castelli  encontrada em  The Inspiration Grid .

O respeito à energia feminina que já existe na sociedade mas ainda é ignorada. | Ilustração Cecilia Castelli encontrada em The Inspiration Grid.

Existe esse outro nível de integração, de inclusão do feminino que beneficia absolutamente todos nós, e diz respeito ao aspecto holístico e sistêmico da saúde e, por consequência, da medicina. É a (re)inclusão das ervas, dos aromas, dos alimentos, do toque, das sabedorias milenares, do cuidado das emoções e da psique como possibilidades válidas de autocuidado.

Já conversei com mais de uma dezena de médicos e cientistas - homens e mulheres - sobre o meu trabalho e hoje eu entendo que aqueles que (muito respeitosamente) me dizem que a minha visão de saúde não tem valor e não funciona o fazem porque, assim como eu na Psicologia, foram doutrinados a reconhecer como verdadeiras somente as informações adquiridas e validadas pelos cinco sentidos concretos.

Hoje em dia eu nem vejo mais a deificação da ciência e da medicina ocidentais com olhos julgadores. Pelo contrário, eu entendo que o pensamento médico ocidental é masculino e objetivo, e por não entender a sinuosidade do feminino holístico, trata de invalidá-lo. É mais um medo do diferente e uma incapacidade de entendê-lo, do que uma arrogância.


A medicina convencional trata o corpo como uma máquina complexa cujas partes, apesar de interagirem entre si, podem e devem ser endereçadas isoladamente. Os medicamentos produzidos atualmente são super especializados, as cirurgias são super precisas e os tratamentos podem ser muito pontuais. Devido à sua natureza, ela precisa de um sintoma ou de alguma patologia para aplicar as suas técnicas, que não tem utilidade em organismos saudáveis. É no espaço da doença que a medicina convencional funciona melhor.

Há dois anos, quando eu tive uma apendicite, foi ao Pronto-Socorro que eu me dirigi. Eu sabia que precisaria de uma cirurgia e nenhum floral iria resolver o meu problema. Tomei anestesia, antiinflamatório, antibiótico. A cirurgia demorou menos de 40 minutos e eu saí de lá apenas com três pequenos furos no meu abdômen. Uma infecção que há alguns séculos teria me matado, foi resolvida em uma tarde e eu voltei para casa 24h depois.

A medicina holística / complementar / alternativa, por sua vez, trata o corpo como um sistema inteligente e autorregulado. Neste campo, o corpo é visto como um organismo cujas partes não devem ser trabalhadas separadamente. Sua tecnologia não permite abrir o corpo de alguém e retirar um apêndice, mas sabe endereçar muito bem os fatores que se escondem por trás da apendicite. Seu principal foco é a prevenção de doenças e o tratamento das questões que vão além das patologias. O terapeuta integrativo não precisa de um sintoma para trabalhar e suas técnicas lhe permitem cuidar de organismos saudáveis para mantê-los equilibrados. É nesse espaço que ela funciona melhor.

Uma vez por ano, a minha ginecologista me examina, faz testes, apresenta dados e compara os resultados com os do ano anterior. Esses encontros me deixam segura e me apresentam um panorama concreto do meu corpo. Se nada de estranho aparece, isso é tudo o que ela pode fazer por mim, já que ela está treinada para atuar em cima das possíveis patologias.

A integração verdadeira do feminino que complementa (e não compete com) o trabalho do masculino. | Ilustração  Cecilia Castelli  encontrada em  The Inspiration Grid .

A integração verdadeira do feminino que complementa (e não compete com) o trabalho do masculino. | Ilustração Cecilia Castelli encontrada em The Inspiration Grid.

Entre uma consulta anual e outra, no entanto, mesmo que todos os meus exames estejam perfeitos, eu trato o meu feminino na psicoterapia, cuido do meu aparelho reprodutor com BodyTalk, uso os conhecimentos da medicina chinesa para cuidar da minha energia. Aqui o foco não é no que está desequilibrado e sim na manutenção do equilíbrio não só físico, como mental, emocional e energético.

Um trabalho não ocupa o espaço do outro. Eles possuem sabedorias e campos de atuação complementares. Um organiza e o outro conserta. Um funciona a longo prazo e o outro tem atuação imediata.

A maturidade para onde eu espero que estejamos caminhando - porque sinceramente, desde onde eu vejo, é o caminho saudável a ser trilhado - é a integração verdadeira, a aceitação de que existe um espaço muito importante a ser ocupado pelo feminino no cuidado da saúde, que complementa (e não compete com) o trabalho do masculino.

E junto com isso, já que todos os movimentos irradiam para os dois lados, eu enxergo que a inclusão da medicina integrativa pode trazer maturidade e ainda melhores resultados para o trabalho da medicina convencional, que apoiada em duas pernas, pode chegar mais longe.