MARIE KONDO DA CASA INTERNA

Fluir saudavelmente pela minha vida quer dizer focar na organização da minha casinha interna, entendendo que essa casa continuará erguida na mesma rua, mesmo bairro, mesmo planeta de outras casinhas menos arrumadas.

A minha casa arrumada tem uma configuração, a sua vai ter outra. Eu arrumo minhas coisas e espero que você arrume as suas. | Ilustração  Lena Vargas Afanasieva  encontrada  aqui .

A minha casa arrumada tem uma configuração, a sua vai ter outra. Eu arrumo minhas coisas e espero que você arrume as suas. | Ilustração Lena Vargas Afanasieva encontrada aqui.


Há uns 2 anos eu comecei a me apresentar no mundo digital como uma pessoa que “te ajuda a organizar o seu mundo interno”. Na época, eu estava usando as sessões de BodyTalk para investigar o desenvolvimento das neuroses e comecei a enxergá-las como uma “bagunça na casa”.

O que acontece é que eu sou organizadora por natureza. Muito mesmo. Se tem uma coisa que eu sei fazer, é colocar as coisas em ordem, pegar uma coisa bem bagunçada e descobrir como arrumá-la. Então é claro que esse é o viés que eu usei para enxergar o trabalho que estava sendo feito no consultório: com um empurrãozinho do trabalho no consultório, meus pacientes estavam organizando seus mundos internos.

Tempos atrás uma paciente comentou, ao final de uma sessão: “Eu me sinto uma cebola humana. Toda vez que eu descasco uma camada, encontro outra embaixo para trabalhar”. Rimos juntas, falamos sobre a complexidade da nossa psique, e ela foi embora.

Mas quando ela saiu do consultório, minha Mente já estava zunindo, as pecinhas separadas de um grande quebra-cabeças surgindo de seus esconderijos para formar diante dos meus olhos a imagem de algo que eu já vinha tentando entender há tempos.

Apesar de sermos um entrelaçamento de muitos conteúdos (traços de personalidade, memórias, comportamentos e crenças aprendidos, configurações genéticas, astrológicas, energéticas etc), didaticamente faz sentido falar sobre o processo terapêutico como um trabalho em camadas.

O insight pós conversa com minha paciente me levou a pensar nas camadas que a gente desvela ao longo da vida conforme vai se conhecendo melhor e me lembrei do meu próprio caminho de auto-observação, terapias, investigação, organização interna dos últimos 20 anos.

Nos meus primeiros anos de terapia, lá com 21 anos, o foco do trabalho era a minha autoestima e a minha dificuldade de sair de um relacionamento que já não estava muito legal. Essa parecia ser uma camada, a da autoestima.

Depois, com a autoestima já mais fortalecida, terminei aquele namoro e tive outros relacionamentos. Nessa época, percebi que atrás da autoestima havia uma camada que dizia respeito à dinâmica do casamento dos meus pais, a como eu aprendi a me relacionar observando o relacionamento deles. Enquanto o trabalho da autoestima parecia estar se contraindo, o trabalho a respeito dos meus pais estava a todo vapor, super expandido. Mas trabalhar os efeitos do casamento dos meus pais na minha vida, ao mesmo tempo, influenciava diretamente a minha autoestima. Uma camada entrelaçada à outra. Está dando para acompanhar?

Após organizar um pouco a questão com os meus pais, já bem mais adulta e casada, comecei a trabalhar as mensagens que eu recebi e internalizei, ao longo da minha vida, a respeito do lugar da mulher/esposa em relação ao homem/marido. Enquanto eu olhava para isso, voltei para terminar de organizar uma coisa que tinha ficado pendente na outra camada, aquela dos meus pais. Ressignifiquei a minha mãe. Ressignifiquei o meu feminino.

Hoje eu entendo que eu precisava ter esgotado ao máximo o trabalho a respeito dos meus pais para que a camada do feminino se expandisse para ser trabalhada. E assim que ela se mostrou, eu pude voltar para trabalhar o que tinha ficado pendente lá atrás.

O autodesenvolvimento é uma dança, um vai-e-vem, um expandir e contrair.

Foi a partir daí, há uns 5 ou 6 anos, que eu parei de enxergar o trabalho terapêutico como um “andar para frente” e passei a enxergá-lo como uma organização das várias informações registradas em cada camada do meu mundo interno.

Neste mundo holístico pelo qual eu transito, falamos muito em iluminação, desidentificação com o ego, desenvolvimento espiritual, mas tem um lugar dentro de mim, o lugar da psicóloga conservadora, que acredita que alguns conteúdos só são organizados com um bom acompanhamento terapêutico. Não precisa ser uma terapia formal, mas falo de um trabalho sério e responsável, com um terapeuta treinado que te observe de fora e aponte os pontos cegos que você não consegue ver.

Quem ouviu os primeiros episódios do Metamorfose Ambulante me ouviu falando sobre o impacto dos últimos meses de 2018 no meu trabalho. Estávamos em plenas eleições presidenciais e eu recebi em meu consultório pessoas que estão bastante comprometidas com seus processos de autodesenvolvimento mas que estavam doentes, sem energia, mexidas com o que estava acontecendo ao nosso redor.

Fiquei desconcertada e decidi estudar em livros, entrevistas, podcasts o que poderia estar acontecendo. Continuei me observando e usando as sessões para também investigar e, mais uma vez, me deparei com a ideia de colocar ordem nos conteúdos para ajudar essas pessoas a saírem do congelamento, da raiva, da estagnação emocional, e voltarem e funcionar normalmente na vida.

Acho que ao longo da vida, apesar de fazer sentido a alegoria do processo terapêutico como um descascar de uma cebola, eu entendo que também faz sentido usar a ideia da organização interna. Uma coisa meio Marie Kondo do mundo interno. Quando essa ordem é alcançada, o resto se organiza organicamente e aqueles movimentos naturais de expansão e contração que fazem parte da vida, de aproximação e afastamento das coisas, pessoas, ideias etc, voltam a acontecer. A gente não fica mais fixado em uma coisa. E, por sua vez, quando essa ordem interna entra em sintonia, fica mais fácil entrar no fluxo natural da vida.

Antes, por certo, eu via esse tal fluxo da vida como um rio que corre em uma certa direção. Me entregar ao fluxo da minha vida significava me jogar no rio e me entregar à corrente. Mas depois da história da cebola e da organização dos movimentos internos, eu percebi que essa analogia me fazia entender que o rio tinha um caminho linear, que sai de um ponto A e chega em um ponto B. Isso me trazia (1) uma dificuldade de entender como essa analogia se aplicava a situações como um casamento, por exemplo (meu rio juntou com o do Fábio? quem desembocou no rio de quem?) e (2) a sensação de que eu podia entrar no rio e ir embora, deixando para trás a vida, as pessoas, as situações de uma Verena menos trabalhada e evoluída. Super do ego, eu sei.

Então, quando eu entendi que fluir saudavelmente pela minha vida tinha a ver com focar na organização da minha casinha interna mas que essa casinha não iria a lugar nenhum, pelo contrário, continuaria erguida na mesma rua, mesmo bairro, mesmo planeta de outras casinhas mais bagunçadas, eu também passei a ver o mundo de outra forma.

Parei de olhar para as outras pessoas esperando que elas evoluíssem para que a gente se encontrasse em outro ponto do rio, parei de esperar que a sociedade evoluísse de um ponto A a um ponto B, e passei a entender que precisamos mesmo é arrumar primeiro a nossa casa interna, cada um colocando em ordem e disponibilizando os seus superpoderes, assumindo e organizando os seus julgamentos, entendendo que cada casinha, cada mundo interno ocupa um espaço na nossa rua, sim, e que mesmo assim nos cabe conviver de forma construtiva.

Olhar para mim como um mundo em organização e não um organismo em evolução me traz uma ideia de que ninguém está mais na frente nem mais atrás, ninguém caminhou mais do que o outro, ninguém é melhor.

Eu tenho falado bastante sobre tolerância no Metamorfose Ambulante porque tenho pensado muito na minha habilidade de conviver com o diferente desde que eu comecei a prestar atenção nos meus movimentos e na organização do meus conteúdos internos.

Essa percepção, esse tentar viver a partir da minha organização interna, entendendo que eu tenho conteúdos que estão se desenvolvendo, outros que estão se contraindo, alguns esperando para poderem se apresentar (como no exemplo que eu dei lá em cima sobre os meus anos de terapia), tem sido muito, muito forte. Quando eu estou alinhada com isso, me sinto menos impositiva e mais tolerante porque não espero mais que ninguém pense como eu ou “chegue onde eu já cheguei”.

A minha casa arrumada tem uma configuração, a sua vai ter outra. Eu arrumo minhas coisas e espero que você arrume as suas. Apenas isso. Se o vizinho da casa ao lado vai continuar deixando a cortina laranja dele do lado de fora da janela, isso é problema dele, mesmo que eu ache horroroso. A casa é dele, sabe? Se não estiver interferindo na minha casa, no meu mundo interno, ele deixa a cortina dele como ele quiser.

Tal perspetiva me fez olhar para os preconceitos, por exemplo, não como uma falta de evolução mas como falta de ordem interna de um ser humano a respeito de um assunto específico (sexualidade, por exemplo), resultando em uma dificuldade ou na resistência daquela pessoa em entender a expressão da sexualidade de outras pessoas. Como se ele dissesse “Não gosto de cortina laranja na minha casa, portanto não quero que você use uma na sua”.

Não sei se dá para perceber a diferença, mas isso me traz uma ideia de que eu não preciso ter a expectativa de que um dia todos sejamos contra o porte de armas, por exemplo. Estou disposta a entender que provavelmente sempre haverá pessoas a favor e outras contra. O que eu espero é que eu esteja suficientemente organizada para poder conviver com a ideia do outro, com a cortina laranja que ele faz questão de deixar de fora, e também espero entender que a configuração interna daquele ser humano, a história que o trouxe até aqui, faz com que ele ache normal pendurar uma cortina laranja ou carregar uma arma.

A gente precisa é saber respeitar a ordem interna que o outro está construindo para ele e exigir que o outro respeite a nossa porque, no mundo externo, nossas bolhas vão se encontrar, vão interferir umas na outras, e essa interação pode ser construtiva ou desagregadora. Depende de nós.

Devido a isso, eu não projeto mais uma expectativa de que o mundo um dia seja mais homogêneo, que todos pensemos mais ou menos igual (como eu imaginava antes), mas agora entendo que talvez seja mais plausível esperar que estejamos tão organizados internamente, com os nossos conteúdos tão arrumadinhos, que seguiremos sendo tão heterogêneos quanto hoje, mas mais tolerantes.

E a partir daí, de um mundo com pessoas mais organizadas, talvez até as cortinas laranja nem sejam mais necessárias. Ou talvez todo mundo decida pendurar cortinas da mesma cor. Eu não sei, não chegamos na ordem da conciliação ainda… como eu disse lá no podcast, ainda estamos vivendo nos tempos do embate e por isso não faço ideia do que aconteceria com as diferenças entre nós se todos estivéssemos na energia da tolerância e do respeito.

Enfim, ainda estou entendendo tudo isso. O Metamorfose e estes textos, como eu já venho dizendo há um tempo, são uma forma de eu elaborar estas ideias porque eu só consigo organizá-las quando falo sobre elas. De qualquer forma, o que eu estou experimentando enquanto pratico essa outra forma de ver e existir no mundo é que quanto mais eu me organizo, mais ordem vejo no mundo, e isso é muito, muito expansivo e libertador.